Associação Contra a Exclusão pelo Desenvolvimento
http://members.xoom.com/SOS_PRISOES
Seminário
Prisões:
Economia,
Justiça e
Sociedade
Grupo de Trabalho para as Prisões
jornal SOS PRISÕES
Comemorações dos
25 anos do
25 de Abril de 1974
Colaborações:
João Bosco Mota Amaral
Eduardo Maia e Costa
Manuel Villaverde Cabral
João Alves da Silva
Grupo Parlamentar do PS
Grupo Parlamentar do PCP
Congresso da SOMA
António Manuel de Alte Pinho
António Pedro Dores
Capa:
António Pedro Dores
Edição:
Rui Marques
Apresentação
Começámos por imaginar este seminário como uma oportunidade de discutir políticas nacionais de justiça, criminal, prisional e de reinserção social, propondo-nos chamar a atenção de que também existem pontos de vista de presos.
Mostrar como a humanidade fica mais pobre com as práticas prisionais vigentes em Portugal, 25 anos depois do 25 de Abril e procurar as causas e consequências desse sofrimento foi o nosso objectivo, na esperança que, informados os portugueses, a situação tendesse a mudar para melhor.
Nesse sentido pedimos aos partidos que nos informassem sobre as respectivas políticas prisionais. As duas respostas recebidas foram-nos entregues no próprio dia do seminário, impedindo assim qualquer reflexão sobre elas. Registamo-las aqui e deixamos o debate sobre elas para outra oportunidade.
Neste Seminário foi-nos dito, por autoridades nas matérias, que:
· Deveria ser possível avaliar a boa utilização dos dinheiros públicos do Estado, dos nossos impostos, nos serviços prisionais: quando as queixas contra os atentados aos direitos humanos dos reclusos são hoje incontestáveis e internacionais, as arbitrariedades na gestão das penas também e o acompanhamento médico-sanitário e social ineficazes, temos o direito e o dever de pedir contas enquanto cidadãos;
· Sabendo ser o trabalho uma das principais formas de socialização nas sociedades modernas, é preciso insistir nas garantias de oportunidades de trabalho dignificante para os reclusos dentro e fora das prisões;
· Sabendo do papel que a educação e os professores voluntários do ministério da educação têm desempenhado nas prisões , é prioritário reconhecer, valorizar e dar melhores condições a estes profissionais da integração social, de eficácia tão rara junto dos prisioneiros;
· É preciso denunciar a actual situação das prisões como uma das consequências da economia da droga;
· Deverá haver consciência de que se sabe serem as prisões reais focos infecciosos da saúde pública, estando documentado ter sido duma prisão da zona de Lisboa o epicentro da maior onda infecciosa de tuberculose de que há registo na Europa;
· As práticas médicas prisionais em Portugal são de tal forma incompatíveis com a deontologia profissional da classe que os concursos para os lugares ficam desertos;
· A quantidade de pessoal médico para atender às necessidades particularmente exigentes dos reclusos é de 1 para mil, segundo o relatório do Provedor de Justiça de há dois anos, o que não pode deixar de significar que os reclusos não têm, ao contrário do que prescreve a Lei, o seu direito à saúde assegurado em pé de igualdade com os restantes cidadãos;
· 140 reclusos por 10 mil habitantes é uma taxa que dobra o número de reclusos na Comunidade Europeia a grande distância do segundo lugar;
· Desde 1974, quando havia em Portugal cerca de 2500 presos, o número de encarcerados não deixou de crescer, primeiro por causa da Lei do cheque e depois dela pela perseguição aos consumidores de drogas ilícitas;
· Um terço dos reclusos está nessa situação por crimes directamente relacionados com consumo de droga, dado que o muito pequeno tráfico decorre da necessidade de alimentar o vício nos casos em que os toxicodependentes não sejam ricos. Por crimes indirectamente relacionados com a droga teríamos de acrescentar muitos dos esticões, assaltos a residências, roubos e furtos, etc.
· Há uma pressão institucional sobre os magistrados por parte dos partidos que clamam com a ameaça de insegurança que, de facto, não existe em termos relativos, e por parte das polícias, lançadas na perseguição dos pequenos traficantes e que sente os seus esforços frustrados se não obtêm condenações para punir com mão de ferro
· A utilização de medidas de clemência não deve ser uma forma de aligeirar as responsabilidades do estado de investir recursos e políticas adequadas às novas situações sociais, com aconteceu no regime ditatorial, por exemplo para evitar a reflexão sobre a incapacidade de capturar os grandes traficantes;
· As medidas de clemência justificam-se hoje porque a situação nas prisões é indecorosa e injusta e porque as comemorações da democracia e das liberdades em Portugal seriam enriquecidas com isso;
· As medidas de clemência, para o serem no sentido útil e positivo, devem ser acompanhadas de medidas de política criminal e social que previnam situações semelhantes e contrariem as tendências actuais.
Não é sem preocupação que se verifica uma maior afirmação de posições políticas repressivas, em particular das que propõe "resolver" o problema investindo na maior disponibilidade do parque prisional português, numa lógica persecutória.
Para combater tal estado de coisas é necessário lutar para que as vidas nas prisões não sejam opacas ao povo português. É necessário que o estudo e a apresentação dos problemas prisionais sejam motivo de atenção não apenas por parte dos responsáveis pelo sector mas por todos os interessados, a começar pelas famílias e amigos dos reclusos que também sofrem a pena sem culpa e pelos investigadores científicos (das áreas da saúde e das ciências sociais), cidadãos e associações.
A institucionalização de um sistema independente de acesso ao mundo prisional cientificamente dirigido, por exemplo sob a forma de observatório das prisões, capaz de enquadrar trabalhos de pesquisa universitária que neste momento estão praticamente inibidos por uma política de secretismo que só se pode compreender por um falso pudor de evitar identificar com objectividade e de forma credível o que é o mundo prisional em Portugal.
Artigo de J. B. Mota Amaral
Diário de Notícias, 6 de Fevereiro de 1999
Uma causa humanitária
Noite insone em Lisboa. Com uma sinusite fortíssima, pago o preço das constantes viagens aéreas entre os Açores e a capital. São três horas da manhã e, vencendo os vidros duplos das janelas, chega-me o ruído do tráfego, em alta velocidade, na saída de um dos túneis do Campo Grande.
Passo em revista escritos vários, relativos à questão das medidas de clemência.
Os primeiros remontam a 1996, às imediações da eleição presidencial, que levou Jorge Sampaio ao Palácio de Belém. É tradição antiga que a inauguração do novo Chefe de Estado seja assinalada com providências legais de amnistia e perdão de penas. Relembro o costume, em devido tempo, na comissão parlamentar competente. Há vozes de apoio, outras discordantes.
O rescaldo do caso FP-25 de Abril - personificado em Otelo Saraiva de Carvalho, o mítico comandante operacional da revolução libertadora, amnistiado a instâncias do ainda presidente Mário Soares - bloqueia qualquer nova decisão similar. Deploro que o Presidente da República recém-empossado, conhecido pelas suas lutas em prol da liberdade e dos direitos humanos, fique sendo precisamente aquele cujo início de mandato não leva uma mensagem de alegria aos cidadãos e às cidadãs que padecem nas prisões, bem como às respectivas famílias.
Considerando-se frustrados nas suas expectativas e mesmo injustiçados, face à gravidade dos crimes imputados às FP-25 de Abril, os presos movimentam-se, há motins nas cadeias, com a consequente repressão... Encaminhados pelo ministro da Justiça para exercerem o seu direito de petição, nos termos constitucionais, mais de metade dos reclusos e reclusas do País subscrevem um documento de apelo à Assembleia da República.
As posições dos partidos políticos parlamentares estão, porém, radicalizadas e nenhum deles se atreve a dar o primeiro passo. Para usar da palavra em favor do perdão, tenho de prevalecer-me de um expediente regimental, face à irredutibilidade do PSD numa atitude negativa.
Rolam meses e anos... A situação das prisões mantém-se difícil, apesar dos melhoramentos introduzidos em instalações e em métodos de trabalho, sobretudo estes, da iniciativa e responsabilidade imediatas do director-geral, Celso Manata, que descomprimem tensões e permitem retomar a tranquilidade da população prisional.
O provedor de Justiça publica extenso e documentado relatório sobre a realidade prisional portuguesa. O Presidente da República, em vésperas do Natal de 97, visita algumas cadeias e manifesta-se profundamente angustiado.
Levanto novamente a ideia de um perdão genérico de penas, que leve em linha de conta uma realidade incontroversa: com as limitações existentes, o cumprimento da pena de prisão é, passe o pleonasmo, especialmente penoso... A sobrelotação do sistema prisional implica que à privação da liberdade esteja associada uma total privação da privacidade, agravando os óbvios sofrimentos dos encarcerados. Descrevo situações de que tenho conhecimento pessoal: celas com 16 reclusos, forçados a permanecer deitados nos beliches boa parte do dia, por não terem espaço sequer para se moverem à vontade...
Contesto a argumentação securitária: qualquer coisa de errado deve haver para que o nosso país, de índices de criminalidade relativamente baixos, seja o recordista, no seio da União Europeia, em termos de densidade de população prisional e de sobrelotação das cadeias. Aos que opinam que o necessário é fazer mais e maiores estabelecimentos prisionais, lembro que mesmo assim só a médio prazo se consegue alargar a capacidade do parque existente, de modo que a situação actual permanece grave e têm de ser reconhecidas as implicações daí decorrentes, tirando-se delas as óbvias consequências.
Sublinho sempre o carácter humanitário desta causa. Por amarga experiência familiar, sei o que é estar preso e os desgostos e humilhações que tal implica para tantas pessoas inocentes, afectivamente comprometidas com os condenados.
Evoco o desgraçado impacte do flagelo da toxicodependência, que lavra por aí e faz vítimas em número cada vez maior. Peço uma oportunidade para os que demonstrem querer deveras refazer a sua vida, e se vêem esmagados pela dureza das leis repressivas, pela mão pesada de quem julga, pela aplicação retroactiva - ilegal e inconstitucional, mas sem recurso possível... - de regras limitativas da liberdade condicional.
Encontram eco os meus apelos no Congresso Mundial das Misericórdias, comemorativo do quinto centenário da sua fundação. Fazendo jus aos seus antigos pergaminhos de "rogar pelos prisioneiros, aos pés do trono", as misericórdias pedem, unanimemente, clemência para os condenados.
Não faltam de resto outros motivos para partilhar, com as famílias em transe de tal padecimento, o júbilo nacional do ano de 1998. Indico-os, um por um, num rascunho de projecto de lei de perdão genérico e parcial de penas, elaborado sob o encorajamento dos sinais positivos da opinião pública quanto à aprovação até de uma nova amnistia.
A divulgação desse documento desencadeia uma vaga de expressões de apoio, encabeçada pelo antigo presidente da República Mário Soares, com a especial autoridade de ter estado preso, ainda por cima injustamente, e saber portanto o que tal significa e como dói.
Entretanto, o establishment governamental e político-partidário, único capaz de accionar a deliberação parlamentar, parece imóvel. Nem sequer a generosa mensagem presidencial sobre a matéria, na cerimónia de abertura do ano judicial, o faz mexer... Imerso nas trevas da noite, sinto-me desanimar!
Reparo, porém, que o céu começa a tingir-se com as cores da alvorada. Desponta o Sol, num céu limpo, frio e azul, bem lisboeta, dissipando a neblina por entre as árvores. Nasce um novo dia e com ele fortalece-se a esperança de conseguir, em tão delicados domínios, temperar, quanto antes, a justiça com o perdão.
Índice
A. Artigo de Mota Amaral, no DN de 6 de Fev. 1999
B. Documentos de promoção da iniciativa
1. Dois documentos ACED Conf. Imprensa
2. Declaração da SOMA a propósito do seu Congresso de Maio de 1998
3. Programa
4. Carta de convite à participação dirigida aos partidos políticos e grupos parlamentares
5. Lista de respostas
6. Lista de convidados institucionais
7. Discurso de abertura do Presidente ACED
8. Discurso do membro do Sport Club Chinquilho Cruzeirense, João Alves da Silva
C. Documentos para debate
1. Economia e Prisões, por Manuel Villaverde Cabral
2. Saúde e Prisões, por Jorge Torgal
3. Justiça e Prisões, por Eduardo Maia e Costa
4. Declaração de Alte Pinho, Secretário Geral da ACED
O sistema de saúde penitenciário está em permanente colapso, acrescentando à pena de privação de liberdade dos reclusos uma outra bem mais perversa: a possibilidade iminente de uma doença infecto-contagiosa - o espectro vertiginoso da morte!
Consideramos fundamental dar um novo impulso ao envolvimento dos cidadãos na definição de critérios e políticas no tratamento penitenciário. Até porque, cada vez mais, parece ser claro que um número significativo de personalidades, instituições e anónimos cidadãos se vêm interrogando sobre a questão de saber se a instituição prisional cumpre com os propósitos ressocializadores legalmente contemplados pela legislação. A nosso ver não cumpre, e, nesta matéria, já lá vai o tempo em que nos sentíamos a "pregar aos peixinhos". Efectivamente, passada que foi a histeria colectiva da "falta de segurança", que serviu de mote às eleições legislativas de 95, traduzida no reforço da policialização da sociedade e na intimidação de cidadãos tendo como pretexto "interesses de Estado" absolutamente inconfessáveis, abrem-se novos caminhos e novas possibilidades de debate e intervenção.
Os "sinais" que advêm da previsível aprovação de um perdão genérico de penas, traduzidos na tomada de posições por parte de vários responsáveis políticos, podem ser indicadores de que as prisões, a administração das penas e os direitos de cidadania dos detidos poderão, de novo, ser colocados na ordem do dia, generalizando-se um movimento de opinião favorável às legítimas (e legais) pretensões dos cidadãos em cumprimento de medidas privativas de liberdade.
Pensamos, porém, ser importante (ao contrário do que parece ser o entendimento de certas sensibilidades) que qualquer medida graciosa tenha um carácter amplo e abrangente, independentemente das tipologias dos crimes e das molduras penais aplicadas.
A celebração dos 25 anos do 25 de Abril de 1974, deveria ser assinalada com uma medida extraordinária equiparada a essa outra que se seguiu ao evento a celebrar. Não seria de forma nenhuma excessivo que os senhores deputados tivessem a coragem de decretar (a título gracioso) a OBRIGATORIEDADE DA CONCESSÃO DE LIBERDADE CONDICIONAL RIGOROSAMENTE A MEIO DA PENA, única forma de se assinalar com dignidade e humanismo uma das mais importantes datas da nossa história colectiva mais recente.
Lisboa, 28 de Dezembro de 1998
O Núcleo de Acção do
GRUPO DE TRABALHO PARA AS PRISÕES
B. Documentos de promoção da iniciativa
Conferência de Imprensa
ISCTE Sala Polivalente 1
28 de Dezembro de 1998, 10 horas
Temos vindo a assistir a uma campanha sem precedentes visando, através da utilização de falácias e outras artimanhas, o branqueamento de um sistema prisional em perigosa rota de colisão com o abismo.
Aparentemente, esta imagem poderá criar a convicção de que nos colocamos numa permanente posição (radical, sectária?...) de "contestação pela contestação". No entanto, se tivermos (todos nós, cidadãos portugueses) uma atenção mais particular sobre o fenómeno prisional, verificamos que as tão propaladas (pelo poder político, evidentemente) "reformas" não são mais do que pensos rápidos no tratamento de gangrena.
A política de obras, que parece ser a "coroa de glória" do poder penitenciário, passa, fundamentalmente, pela realização de reparações e reaproveitamentos de espaços, inaugurados com pompa e circunstância como se fossem novos, as mais das vezes visando colocar no mesmo local o dobro e o triplo da lotação permitida. A gestão desses espaços está em absoluta contradição com o espírito e expressão da Lei da Reforma Prisional (Dec.-Lei 265/79), lei essa que impede a sobrelotação e garante o direito à privacidade dos detidos.
A aparente, e escandalosamente propagandeada, política de combate à toxicodependência, ao contrário do que seria fundamental, não se reveste de implantação nacional nem assenta numa visão global do problema, excepção feita para a Ala G do Estabelecimento Prisional de Lisboa, mais pela competência dos técnicos envolvidos do que por uma visão ampla e ousada que parece faltar aos responsáveis prisionais.
Ao mesmo tempo que se derrama baba e ranho pelos "coitadinhos dos toxicodependentes", implementam-se critérios claros preconceituosos e discriminatórios que impedem o acesso destes aos cursos de formação profissional e aos processos de Regime Aberto decorrentes de protocolos assinados com autarquias e outras instituições.
Comunicado de Imprensa da ACED
Lisboa, 28 de Dezembro de 1998
A ACED apoia a iniciativa do deputado Mota Amaral
A ACED vem apelar aos deputados e às direcções do PSD e do PP para não obstaculizarem a iniciativa do deputado Mota Amaral de propor a decisão de perdão alargado de penas na Assembleia da República.
Faz agora um ano, esta associação decidiu tomar a iniciativa de pedir aos responsáveis políticos do País que se mobilizassem no sentido de conseguirem realizar objectivo semelhante. Para esse efeito reunimos um conjunto de assinaturas de cidadãos que connosco partilharam a iniciativa e entregámo-las às autoridades.
Secundamos, pois, naturalmente o Dr. Mário Soares, o sr. Bispo de Leiria que, mais recentemente, declararam a sua solidariedade com a iniciativa do deputado Mota Amaral.
Destacamos quatro ordens de razões para a nossa tomada de posição, que esperamos possa agora encontrar eco na Assembleia da República.
a) Por razões humanitárias: as prisões portuguesas não apenas são palco de atentados aos Direitos Humanos dos reclusos, denunciados pelo Conselho da Europa e pelo Presidente da República, como são, no dizer de Salgado Matos, uma condenação aleatória à morte dos reclusos no seu conjunto: o descontrolo sanitário, a permiscuidade da superlotação das cadeias e a ausência de um acompanhamento médico provocam uma mortalidade bárbara entre a população maioritariamente jovem das prisões.
b) Por razões morais: o perdão não é apenas um valor cristão, o que já não é pouco, em especial num país como Portugal, é um instrumento indispensável de pacificação social. Efectivamente o atraso com que a jovem democracia portuguesa tem a vindo a (des)cuidar a Justiça traz consigo germes de conflitualidade artificial, i.e., que não interessa a ninguém, que é apenas disfunção institucional que se pode reflectir em problemas sociais evitáveis. A Justiça não tem conseguido combater a crescente desigualdade social que atinge o País de forma mais intensa que em qualquer outro país da comunidade. Pelo contrário, a Justiça portuguesa faz das suas fraquezas forças: bate duro naqueles que consegue "caçar" (Portugal é dos países da Comunidade com índices de criminalidade mais baixos mas com taxas de presos preventivos mais altas; Portugal é dos países com leis penais mais suaves mas com penas efectivas mais altas) e deixa impunes os que têm poderes para tal.
c) Por razões práticas: minorar a superlotação das prisões, contribuir para a diminuição das tensões sociais e assumir o objectivo de fazer cumprir a lei que regula a vida prisional, como é obrigação de um Estado de Direito, nomeadamente quanto à igualdade de direitos no acesso aos cuidados de saúde ao nível da higiene quotidiana, da alimentação, da prevenção de doenças infecto-contagiosas (através da distribuição de preservativos, troca de seringas, programas de substituição, etc.)
d) Por razões políticas: a modernização da sociedade portuguesa também traz consigo novos riscos, principalmente para os grupos sociais e as pessoas menos preparadas para os enfrentar. Na prática verifica-se que em Portugal a modernização tem vindo a agudizar as desigualdades sociais a níveis desconhecidos nos outros países da Comunidade Europeia. As instituições judiciais ressentem-se da nova conflitualidade social continuando a discriminar entre os poderosos e o resto da população, através de atitudes complacentes perante os primeiros e incompreensivelmente duros perante os segundos. Urge, claro, uma profunda reforma da Justiça.
A questão que queremos então colocar aos deputados é esta: A preocupação social da vossa política actual é de facto uma prioridade própria ou é apenas uma preocupação demagógica de ir ao encontro dos sentimentos do Povo, para daí evitar consequências?
Se é uma prioridade própria, como julgamos que seja, qual o seu lugar no quadro da estratégia política? E, em particular, como pensam que os problemas dos presos, dentro na prisão, podem ser atacados? E como se podem incentivar as acções públicas e privadas de integração social dos excluídos?
É que, para nós, como indica o nome da nossa associação, sem combate à exclusão social não há desenvolvimento!
A ACED
António Pedro Dores
(Presidente)
Conclusões e recomendações do Congresso da SOMA - Associação Portuguesa Anti-proibicionista "Tudo sobre a droga", realizado em 29 e 30 de Maio de 1998 em Lisboa.
1. Situação presente
Todos os dados disponíveis e principais relatórios, internacionais e nacionais, atestam que o comércio e o consumo de drogas ilícitas revela, actualmente, a sua maior dimensão de sempre, representando parte significativa do comércio mundial.
A proibição não representou um obstáculo à actividade de produção, comércio e expansão de mercados das drogas ilícitas mas, pelo contrário, foi um factor determinante do seu sucesso, designadamente ao possibilitar o seu lucro ímpar.
Nas sociedades contemporâneas, a compreensão dos fenómenos inerentes às drogas ilícitas tem o seu principal nexo de inteligibilidade na relação que une a lógica interna da expansão clandestina do narcotráfico ao crescimento dos mercados de consumidores.
O proibicionismo revelou-se uma doutrina e uma política dogmáticas, que em nome de um puritano objectivo de sociedade sem drogas, alheio à história e à cultura dos povos, proporcionou as condições de desenvolvimento da barbárie do narcotráfico e das mafias que lhes estão associados. O seu discurso e a sua prática afrontam os elementares critérios de racionalidade.
Reduzir as questões políticas e sociais levantadas pelo comércio das drogas ilícitas à questão da toxicodependência envolve a ocultação inerente uma tomar parte, entre muitas outras, do todo.
O comércio interdito, mas, de facto, generalizado, de drogas atinge bens políticos fundamentais num estado de direito, afectando a vida comunitária no seu todo. É uma das principais causas de criminalidade e de insegurança, provoca fenómenos de intolerância inusitados, bloqueia o sistema judiciário e prisional, engendra corrupção, adultera a concorrência e a actividade económicas, cria condições para o discurso autoritário e para as práticas abusivas.
A circunstância clandestina no uso das droga ilícitas foi e é factor primordial na difusão das principais epidemias contemporâneas, designadamente a sida e as hepatites.
Só no quadro da legalização das drogas se vislumbra a possibilidade de vencer o desafio civilizacional que o comércio de drogas ilícitas coloca às sociedades contemporâneas.
2. Diferentes respostas para diferentes drogas
Como o conceito de "droga" é um conceito não científico, mas instituído a partir de juízos morais e políticos, nele se agrupam produtos muito distintos, que se diferenciam por terem em comum a característica de serem declarados interditos.
Uma política objectiva deve distinguir o significado do consumo das diferentes drogas e responder-lhes diversificadamente, não descurando a necessidade de promover, através de adequadas campanhas de informação, o conhecimento público dessa distinção.
É hoje claro que o principal dano produzido pelo consumo do cannabis é o que resulta do seu mercado coincidir com o de outras drogas ilícitas, o que sujeita os utilizadores das drogas mais consumidas à pressão contínua dos traficantes.
Apesar das suas várias limitações, a política holandesa teve, neste domínio, excelentes resultados.
No que respeita aos opiáceos, as condições de acesso legal terão de ser distintas, reclamando designadamente a participação activa do sistema nacional de saúde.
As bem sucedidas experimentações científicas envolvendo distribuição de opiáceos sob controlo médico dão, a este respeito, indicações relevantes.
Outras drogas reclamarão, no seu trânsito para a licitude, outras medidas de controlo.
Elimina-se, assim, "a droga", para passarem a existir drogas, com informação, prevenção e acompanhamento do seu acontecer social diferenciados, como, aliás, acontece em relação àquelas que, hoje, são legais.
3. Acolhimento social e sanitário dos dependentes de drogas
A política de redução de riscos mais consequente é a legalização do acesso às drogas.
À dependência deixará de se adicionar, mais ou menos necessariamente, a exclusão familiar e social, o consumo de produtos adulterados, as infecções por partilha de material infectado, a delinquência do roubo ou da colaboração activa no tráfico.
Porém, as circunstâncias a que muitos consumidores de drogas foram conduzidos pela condenação proibicionista ao inferno para todos os que não se convertessem à abstinência, reclama medidas imediatas no domínio do acolhimento social e sanitário.
Urge uma política de redução de riscos que tenha uma dimensão proporcional ao universo a que se dirige, modelando os seus objectivos e práticas às características dos grupos que o constituem. O anunciado lançamento de programas alargados de drogas de substituição pode representar parte importante na realização deste desígnio.
A distribuição de metadona já está suficientemente experimentada e pode ser generalizada, desde que não se veja nela a panaceia para todas as situações. Essa distribuição não deve ser monopólio de alguns e deve ser dotada de meios humanos e técnicos suficientes.
Uma parcela não menos importante, face à necessidade de visar cuidados generalizados, será a distribuição sob controlo médico de heroína. A começar, com brevidade, como experimentação restrita, à semelhança do que ocorreu e ocorre noutros países europeus, como o Reino Unido e, recentemente, a Suíça.
Estas orientações e iniciativas, bem como muitas outras (designadamente diversificação da distribuição de um novo kit, criação de locais higiénicos de injecção, formação de pares), devem ser extensivas a todos os estabelecimentos prisionais, no estrito respeito pelo princípio de iguais cuidados de saúde dentro e fora das cadeias.
Não o fazer significa aceitar o regresso à pena de morte, consequente à ausência de resposta capaz às condições de consumo de drogas injectadas e à debilidade no tratamento das infecções daí resultantes.
4. Legislação interna e revisão das convenções internacionais
A bondade da lei afere-se, em boa medida, pela sua eficácia. Se a lei se revela ineficaz ou contraproducente, e, consequentemente, incapaz de proteger os bens jurídicos que a justificam, é uma má lei. Deve ser revista ou revogada. A ineficácia das convenções internacionais e da legislação interna sobre drogas é inerente à avaliação do proibicionismo, pois são os normativos que o instituem, aliás, numa teia de direito internacional impar e com estatuto de excepção na ordem jurídica nacional.
No plano nacional, revela-se necessário, designadamente, proceder à distinção entre as diferentes drogas, conferindo-lhes diferentes estatutos, regulamentar a venda, enquanto produto legalizado, da cannabis e seus derivados (locais de venda licenciada, publicidade passiva, idades de acesso, efeitos sobre terceiros, designadamente por via da condução de veículos), despenalizar o consumo de todas as drogas, bem como detenção e aquisição para consumo, estabelecer fronteiras nítidas e menos rígidas do que na lei actual entre tráfico puro e tráfico para consumo; regulamentar a admissibilidade de testes sobre o consumo (para efeito de acesso ao emprego e de desempenho profissional, etc.).
No plano internacional, é imprescindível que se trave o combate, nas várias instâncias políticas, designadamente nas europeias, pela revisão das convenções internacionais em vigor e, num primeiro momento, pela interpretação ampla de algumas das normas dessas convenções, mormente quanto às noções de "uso tradicional" e de "uso médico", excepções admitidas à proibição indiscriminada. Compete aos eleitos nacionais e às autoridades oficiais serem parte esclarecida e consequente nesse confronto. Este centra-se, no momento presente, na despenalização do consumo das drogas ilícitas, na regulamentação do comércio da cannabis e seus derivados, na permissão da prescrição médica de metadona e de heroína.
Quinta-feira, 25 de Fevereiro de 1999
Grupo Sport Chinquilho Cruzeirense
(fundado em 1928)
R. do Sítio do Casalinho da Ajuda, 8A
Prisões:
Economia, Justiça e Sociedade
A Associação Contra a Exclusão pelo Desenvolvimento (ACED) sente ser seu dever contribuir para a discussão pública de apoio à iniciativa do deputado Mota Amaral com vista à aprovação de um perdão de penas na A.R. no quadro das comemorações do 25 de Abril.
Pensamos que a problemática da integração social dos reclusos pode não ser substancialmente diferente da integração de outras populações excluídas.
As populações excluídas podem, caso seja possível respeitar ou reconstruir as suas identidades de forma positiva, mostrar os caminhos de mudança e transformação, para que as aspirações sociais e o desenvolvimento próximos deixem de ser insustentáveis.
Programa
09 horas - Sessão de abertura
10 horas - Início das três sessões paralelas dos grupos de trabalho
Economia na Prisão
Presidente: Menezes Ferreira da SOMA - associação portuguesa anti-proibicionista
Relator: Prof. Villaverde Cabral
Justiça na Prisão
Presidente: Francisco Teixeira da Mota do Fórum Justiça e Liberdades
Relator: Dr Eduardo Maia Costa
Saúde na Prisão
Presidente: Mª José Campos da ABRAÇO
Relator: Prof. Jorge Torgal
13 horas - Almoço
Prisões: 25 anos depois do 25 de Abril
15 horas - Mesa com o deputado, os relatores e Presidente da ACED
Leitura dos relatos dos grupos de trabalho e declaração de Mota Amaral ao seminário
16 horas Sessão de Encerramento
Comissão Organizadora:
ACED - António Pedro Dores
Abraço - Maria José Campos
Grupo Sport Chinquilho Cruzeirense - João Alves da Silva
Ressurgir - Luísa Sá
Unidos de Cabo Verde Mário Andrade
Núcleo Estudantes de Sociologia da Universidade Lusófona
AE da Universidade Lusófona
Núcleo de Estudantes de Sociologia e Planeamento do ISCTE
AE da Universidade Independente
Patrocínios:
CES/UCoimbra dirigido pelo Prof. Boaventura Sousa Santos e representado pelo Dr. João Pedroso
SOCIUS do ISEG de Lisboa dirigido e representado pelo Prof. Carvalho Ferreira
Departamento de Sociologia do ISCTE
Centro de Investigação e Estudos em Sociologia CIES/ISCTE
Para todos os partidos e grupos parlamentares
De: Comissão Organizadora do Seminário "Economia, Justiça e Sociedade" a realizar dia 25 de Fevereiro no Grupo Sport Chinquilho Cruzeirense (fundado em 1928) R. do Sítio do Casalinho da Ajuda
99/01/20
Assunto: Pedido de informação e convite
Aproximando-se as comemorações do 25 de Abril de 74, e a partir da iniciativa e insistência do deputado Mota Amaral, parece oportuno discutir com serenidade e abertura o problema do sentido das medidas de clemência, Amnistias, Perdão de Penas e respectivos significados, âmbitos e formalidades.
A Associação Contra a Exclusão pelo Desenvolvimento - ACED, decidiu organizar um seminário, como forma de contribuir para o avançar do esclarecimento e debate abrangente, sério, descomplexado e sem tabus de algumas das questões mais importantes que envolvem o citado problema. Para isso convidou para a Comissão Organizadora outras associações cívicas, associações de estudantes e organizações de investigação social.
Decidiu também pedir aos partidos parlamentares e extra parlamentares que informassem o Seminário sobre duas questões simples e precisas:
1) No passado, o que têm feito no sentido de lutar contra a degradante situação prisional, já condenada por organizações internacionais insuspeitas e pelo próprio Presidente da República?
2) No futuro, o que pensam fazer no sentido de contribuir para que a situação nas cadeias portuguesas deixe de ser uma vergonha nacional?
Aos partidos é pedido que respondam concisamente a estas duas questões e que dêem autorização para utilizar tais respostas num opúsculo a produzir pós-seminário, juntamente com outros resultados do mesmo.
Os partidos estão convidados a fazerem-se representar no Seminário, para o que deverão, se possível, informar a Comissão Organizadora.
Pela Comissão Organizadora
António Pedro Dores
(Presidente da ACED)
Resposta do Grupo Parlamentar do PS
transmitida por Celeste Correia
O Partido Socialista tem desde a data da sua constituição revelado uma especial preocupação com o sistema da justiça em geral e com o sistema prisional em particular.
Quer no Governo, quer na oposição o partido socialista, sempre se pautou pela defesa dos direitos fundamentais dos detidos e pela melhoria das condições de vida dos reclusos.
A melhoria das condições prisionais é matéria na qual todos os partidos estão de acordo, mas como se sabe o problema é estrutural e implica um significativo esforço financeiro, que está aliás a ser feito.
Com efeito, o plano de investimento do XIII Governo Constitucional, para os anos de 1997, 1998 e 1999 é superior a 30 milhões de contos e significa um aumento de lotação e melhoria genérica das condições de reclusão, um esforço sem paralelo na história do sistema prisional português.
As prisões não são para o PS, nem podem ser lugar de esquecimento e exclusão, antes deverão ser tempo de renovação de vida, de aprendizagem de novos hábitos e saberes, com vista a possibilitarem aos reclusos a sua reinserção social.
Conscientes que as penas de prisão visam cumprir três fins específicos: punir, dissuadir, e integrar, tudo se tem feito para que esses fins sejam de facto cumpridos.
2) No futuro, o que pensam fazer no sentido de contribuir para que a situação nas cadeias portuguesas deixe de ser uma vergonha nacional?
Discurso de abertura do seminário "Prisões: Economia, Justiça e Sociedade"
Intróito magoado
Anteontem recebi uma carta de um preso em Alcoentre, José Carlos Pereira Rodrigues, declarando-se em greve de fome a partir de 18 último reivindicando a devolução dos seus utensílios e materiais de trabalho que tinham ficado à guarda dos guardas prisionais.
A inspecção dos Serviços Prisionais está informada e parece empenhada há já alguns meses, em resolver o caso, sem sucesso. Esta situação não é caso isolado, mas sim prática corrente em Alcoentre, declara ainda o grevista.
Recordo-me dos casos que ao longo dos anos nos foram chegando.
A carta do Director do EPL que pedia ao cozinheiro para evitar a utilizar carne estragada e vísceras nas refeições, com o argumento de que, na altura, a Comunicação Social andava em cima das prisões.
Os espancamentos de reclusos por denunciarem situações aparentemente pouco lícitas e darem o nome para o SOS-Prisões, As mortes. O Dionísio do telhado de Sintra e que veio a morrer em condições ainda não esclarecidas, em Coimbra. Outra delas trouxe até nós um pai, Joaquim Carmo Pinto, que se tornou militante em memória do filho.
A situação de um ex-recluso estrangeiro a quem, no fim da pena, não foram restituídos os documentos de identificação "perdidos" no EPL. Além de estrangeiro, ex-recluso e a viver num bairro degradado, esteve meses indocumentado.
A história recorrente do abandono dos libertos à porta da prisão sem dinheiro sequer para chegar a casa. Num caso a um manco foi tirada a muleta, porque era material da prisão.
A versão oficial do "motim de Caxias" vai ser julgada pelos meses que se aproximam. A tese da defesa aponta para demonstrar ter-se tratado de uma provocação organizada como forma de controlo de uma situação que ameaçava tornar-se insurreccional dentro das prisões, devido à expectativa que então também se vivia perante a hipótese de uma amnistia. Os incitadores, de acordo com esta tese, teriam sido poupados às acusações e substituídos pelos reclusos nomeados pelos companheiros para os representarem nas negociações com o poder prisional.
É verdade geralmente incontestada que, nas prisões, a delação é recompensada e a verticalidade punida. Os próprios serviços prisionais e também os políticos, preferem calar do que falar destes assuntos. Por isso os serviços prisionais nos consideram e consideram o SOS-Prisões "oposição" e usam contra os princípios democráticos de livre expressão os meios ao seu alcance. Quando ouviram o anúncio de que o SOS-Prisões ia aumentar o número de páginas e saltar também para o exterior das cadeias subtraíram os sistemas informáticos que estavam à disposição dos reclusos que faziam os primeiros SOS-Prisões. Recusam sistemática e nervosamente conceder tempo aos presos que se organizaram connosco para participarem directamente seja em entrevistas com a Margarida Marante seja em seminários como este.
Peço a todos que, durante os trabalhos, não percam de vista que as prisões são uma realidade tabu que aflige a intimidade dos actuais presos, dos ex-presos, das respectivas famílias e amigos. Certamente bem mais de meio milhão de pessoas a viver em Portugal, em geral pessoas de menores recursos económicos, sociais e culturais.
Economia, Justiça e Sociedade
As prisões só são um instrumento de segurança na medida em que conformam a aplicação de princípios de justiça.
Em Portugal, há já alguns anos que se vive uma crise dos sistemas de justiça, que se começou por revelar nas prisões e que é hoje evidente a todos os níveis: administrativo, corporativo, de legitimidade política.
Urge pois activar os mecanismos democráticos na esperança de resolver a questão a contento do bem-estar social, do desenvolvimento e da própria democracia.
As penas de prisão, de acordo com a doutrina constitucional, não retiram aos reclusos os direitos de cidadania que não seja a liberdade. Porém o direito de expressão e comunicação é fortemente restringido sob o pretexto da segurança do próprio sistema prisional. Tal comportamento do sistema é tolerado e aceite pelos responsáveis judiciais e políticos, hipocritamente convencidos de que interpretam o sentimento popular de vingança contra os condenados.
Tal prática ao longo dos 25 anos de democracia, que estamos prestes a comemorar, resultou no facto de ser o sistema de justiça que acolhe no seu próprio seio a instituição que em Portugal mais alheia é ao respeito da lei que a devia reger, promovendo a arbitrariedade, o abuso de poder, a prática da violação dos direitos humanos junto de uma parte da população sujeita a tais vicissitudes: as classes que são alvos privilegiados das condenações judiciárias, as classes mais desfavorecidas.
É certo que a desigualdade social é uma característica da modernidade e do desenvolvimento português e, como tal, terá necessariamente de se reflectir em todos os sistemas institucionais. Mas não é menos certo que os sistemas de justiça, pela forma arrogante e prepotente como tratam os cidadãos e os submetem a arbitrariedades, suportam-se mais na corrente do "pensamento único" do que cumprem o primeiro desígnio democrático de transformar todos os cidadãos em entidades iguais perante a lei.
Por isso começámos por defender: Reclusão com Direitos, conscientes de se tratar de um desafio de todos os cidadãos portugueses. Hoje em dia as prisões não são um lugar seguro. Podem comparar-se com o Casal Ventoso, tanto no tráfico de estupefacientes como no da violação dos direitos humanos, como ainda na presença quotidiana da morte entre jovens abandonados à sua sorte por serviços de acompanhamento social inoperantes, constituindo-se em atentados à saúde pública. As prisões também são uma vergonha nacional, apontada por organismos internacionais como o Conselho da Europa.
Acreditar na democracia não é viver à sua sombra, sacudindo a má consciência para cima de outros, enquanto tudo - há quem diga para que tudo - fique na mesma.
Nós somos cidadãos livres e acreditamos na democracia. Queremos contribuir para pôr a debate a situação nas prisões, com os cidadãos mais directamente envolvidos nos problemas prisionais, porque esses problemas também são um defeito crónico dos nossos sistemas políticos e judiciais.
Prova de que este não é um diagnóstico irrealista é o facto de, por mais de uma vez, e a princípio com grande escândalo para certos sectores corporativos, os mais altos responsáveis políticos da nação terem repetidamente apelado para que os problemas dos sistemas de justiça sejam encarados e trabalhados de forma a evitar crispações sociais contra os próprios sistemas.
Aqueles que entre os poderosos preferem manter o status quo judicial, convencidos de que todos os disfuncionamentos e despautérios lhes serão permitidos, estão a pôr em causa a segurança. Para os combater e para afirmar os princípios de justiça apelámos ao exercício da cidadania:
Segurança com Cidadania
Esta iniciativa que aqui nos reúne hoje nasceu no Congresso da SOMA e decidiu-se numa conferência de imprensa realizada com o apoio da Abraço, em 28 de Dezembro último.
O objectivo é o de abrir o debate sobre as prisões à sociedade portuguesa, convencidos que através desse debate democrático será possível encontrar os caminhos da justiça que nos falta. Esta é a nossa forma de contribuir para as comemorações das bodas de prata da liberdade e da democracia em Portugal.
DISCURSO DE JOÃO ALVES DA SILVA
(CHINQUILHO < ACED)
PARA 25.FEV.99
Inicio a minha exposição um pouco atrás no tempo, quando Mota Amaral era Presidente do Governo Regional dos Açores. Nessa época foi por diversas vezes visitar as cadeias açoreanas, e viu o que o deixaram ver, viu o que o sistema prisional achou que ele podia ver, um sistema funcional, quase perfeito, mas também as prisões não são hotéis .
Mas, quis Deus, que ele fosse tocado fisicamente com o facto, através de um parente próximo, e passasse a ver a Justiça com olhos de quem vê a totalidade e não só uma parte.
É de louvar o Senhor, através do Espírito Santo, pela abertura que lhe fez, que lhe permitiu na sua posição poder propor um ante-projecto para perdão parcial de penas.
Não pode ficar, o cidadão comum, indiferente à situação que se vive na nossa Sociedade, no que se refere às prisões, pois que se em 25 de Abril tínhamos 5.000 presos e agora temos 15.000, sendo o País da Comunidade Europeia com menos criminalidade, dá para pensar como se faz justiça neste País. E, pegando na observação de Mota Amaral, quando um cidadão é preso, é preso todo o seu agregado familiar, ora se multiplicarmos num mínimo de 4, já vamos em 60.000, tendo em atenção que o agregado sofre um estigma na Sociedade, para além relação casal/filhos, se falarmos em pais, irmãos, sobrinhos, facilmente chegaremos aos 600.000, dá para pensar
Como pessoas de bem, que somos, inseridos num Estado de Direito democrático, temos que aceitar o castigo para o crime, temos de admitir que, como disse alguém em tempos as prisões existem para deixarem de existir - , para tornarmos isto realidade teremos de após a detenção do cidadão iniciar-se de imediato uma reeducação. Esta reeducação encontra-se prevista na nossa Lei, já para não falar na nossa Constituição.
Ora, a realidade das nossas prisões poderia ser melhorada se as Leis vigentes fossem respeitadas, ou seja ninguém pode invocar, em sua defesa, a ignorância da Lei, mas, sejamos práticos, se a um recluso quando entra num estabelecimento prisional não lhe é dado acesso à Lei Penitenciária, ou seja a conhecer as suas obrigações e direitos, constantes da Lei de 79, elaborada pela Assembleia da República e assinada pelo Presidente Ramalho Eanes, como é que podem acusá-lo de a desrespeitar e castigá-lo? Talvez que os castigos deixassem de existir se os informassem primeiro.
Vou mencionar casos que gostava que reflectissem:
1. No sistema de ensino a que o recluso tem direito (acordo entre Ministério da Justiça e Ministério da Educação) ministram professores, que diariamente contactam directamente (fisicamente) com os reclusos, sem que se sintam em perigo com essa proximidade e sem nunca terem pedido qualquer subsídio de risco.
· Então porque é que os Guardas Prisionais e os serviços de reinserção e de educação reinvindicaram subsídio de risco? Terá a ver com o seu modo de executar a sua função? Será que o seu relacionamento com os reclusos é feito do melhor modo? Porque será que se sentem ameaçados? Porquê a contestação por parte dos Serviços Prisionais à presença dos Professores nos Conselhos Técnicos?
Afinal, os reclusos são sempre os mesmos
2. Sabemos que cerca de 80% da população prisional está ligada ao consumo e pequeno tráfego de droga, de variadíssimas maneiras vão parar à cadeia, por vezes são os próprios familiares que ao pô-los nas ruas acham que até lhes faz bem passar um tempo na cadeia. Só que lá a quantidade de droga em oferta é enorme, o que vai degradar o cidadão que lá entrou pelo pequeno consumo, e muitas vezes vai conduzi-lo à morte.
Fazendo contas: em 15000 presos 12000 são toxicodependentes, se tomarem uma dose mínima diária de 1.000$00, ficamos com 12.000.000$00 gastos diariamente, só que a realidade é outra, muitos consomem muito mais que uma dose, o que temos de concluir que é uma boa facturação para quem a trafica dentro da cadeia.
Perguntamos: A quem interessa este negócio? Ele é feito numa casa do Estado, entre muros, sem acesso ao mundo real.
Todos nós ultimamente temos sido "bombardeados" , pela imprensa diária, com a grande campanha para acabar com a droga no Casal Ventoso. Ora, perante os factos aqui expostos, pensemos em conjunto:
- se entre muros, nas prisões, sítios totalmente controlados pelo Estado, a droga está cada vez mais em alta, como é que vão acabar com ela na rua? Então as ruas não são livres?
c. Documentos para debate
Uma breve nota sobre o tema, que prefiro designar por "Economia e Prisão":
Ao contrário do que se possa crer, as prisões estão triplamente imersas no mundo económico.
Desde logo, há uma economia prisional: as prisões custam dinheiro aos contribuintes e é preciso ver se os reclusos, bem como as diferentes categorias de pessoal - não só os guardas mas também os médicos, psicólogos, assistentes sociais, etc. que prestam serviço nas prisões, recebem o financiamento necessário para que a instituição funcione com dignidade.
Em segundo lugar, as prisões são também organismos produtivos. Pessoalmente, sou de opinião que o trabalho pode e deve ser um elemento da recuperação e futura reinserção social dos presos. Para que isso suceda, porém, é necessário que esse trabalho seja remunerado de forma condigna e transparente (e não uma espécie de "economia subterrânea" em concorrência com a economia formal). Só desse modo o trabalho prisional poderá desempenhar o referido papel de recuperação. Por outras palavras, é necessário que os presos não tenham o sentimento de que o seu trabalho faz parte da pena a que estão condenados, mas sim de um projecto de reinserção social.
Finalmente, e talvez mais importante, é preciso denunciar o facto de as prisões fazerem parte integrante da economia da droga. Com efeito, tendo em conta que, segundo dados recentes revelados pela comunicação social, 70% dos reclusos que estão nas prisões portuguesas foram condenados ou aguardam julgamento por motivos ligados ao pequeno tráfico e ao consumo de drogas, isto obriga a contabilizar a economia prisional como um custo suportado pela sociedade, para não falar do custo humano pago pelos reclusos tóxico-dependentes, em benefício dos grandes traficantes. Levanta-se, pois, o problema da tóxico-dependência em geral e da liberalização/despenalização das drogas em particular. Em suma, tanto do ponto de vista humano e moral como do ponto de vista económico e social, as prisões são o melhor revelador da vastidão tentacular da economia da droga.
Manuel Villaverde Cabral
JUSTIÇA E PRISÕES
Mas actualmente verifica-se uma situação claramente excepcional: o excesso da população prisional. Excesso em duas perspectivas. A primeira: a taxa de reclusos por mil habitantes, que é a maior da Europa, o que é absolutamente desproporcionado relativamente aos níveis da criminalidade portuguesa. A segunda: sobrelotação crónica e muito elevada do sistema penitenciário. A incapacidade do sistema para cumprir a lei penitenciária. Cumprimento de pena e riscos suplementares.
6. Causas principais deste fenómeno: política criminal sobre droga (criminalização da toxicodependência, preocupação de "tudo punir", confusão legal e jurisprudencial entre consumidores e traficantes); enfatização institucional dos problemas da segurança. A pressão "popular" e institucional) sobre os tribunais para utilização da prisão preventiva e aplicação da pena de prisão.
7. A amnistia como única forma de romper com o círculo vicioso droga-prisão. A solução ilusória da construção de prisões.
8. A amnistia como "reposição da legalidade" face às insuficiências do sistema penitenciário.
9. A amnistia como "reposição da justiça" face à forma desproporcionada e distorcida como a lei pune (lei que os tribunais rigorosamente aplicam) o consumidor-traficante e, em geral, as condutas ligadas à toxicodependência.
10. A amnistia é também justificável pela ocasião festiva da passagem do 25º aniversário da revolução libertadora do 25 de Abril, fundadora do regime democrático.
11. A haver restrições à amnistia (na vertente do perdão de penas), elas só poderiam justificar-se na criminalidade económica, e na dos crimes contra a humanidade, e nunca no tráfico de estupefacientes já que a maioria dos condenados por tal crime são consumidores que traficam pequenas quantidades para consumir e sobreviver.
12. A amnistia isoladamente não passará de uma medida conjuntural com eficácia muito limitada no tempo, se não for complementada pela alteração da política criminal sobre droga, pela implementação autêntica das medidas alternativas à pena de prisão, pela mudança de política de segurança e por uma reacção eficaz à manipulação do sentimento de insegurança.
Eduardo Maia e Costa
Procurador Geral Adjunto
Comunicação de António Manuel de Alte Pinho, secretário-geral da ACED, ao Seminário, lida na ocasião por um companheiro que também serviu de portador de uma lembrança um avião manufacturado, dos presos do EP de Sintra
Mais uma vez me vejo impedido de participar numa actividade cívica de transcendente importância. E transcendente na medida em que, infelizmente, escasseiam iniciativas onde se debatam com seriedade a absolutamente caótica situação das prisões portuguesas.
Mas, como dizia, mais uma vez me vejo impedido de o fazer. Não, como seria de pensar, pela circunstância de me encontrar em cumprimento de uma medida privativa de liberdade, mas, outrossim, pela circunstância de não ser uma voz benquista do poder penitenciário. Ou seja, quase 25 anos depois do 25 de Abril de 1974, há cidadãos portugueses a quem impõem a "lei do funil" e prejudicam, até, a evolução das suas situações prisionais, simplesmente por serem vozes críticas, simplesmente por exercerem um direito fundamental em Democracia: o direito à liberdade de expressão. Ora, isto é absolutamente escandaloso num Estado dito de Direito.
A justiça, e os direitos dos cidadãos, a luta pela Democracia e o direito à indignação, têm tido uma peculiar expressão nas prisões portuguesas. Às vezes, até, uma expressão que nos enche de perplexidade e que, não raras vezes, constitui um bom exemplo de exercício de cidadania sem precedentes na chamada "sociedade livre". Particularmente desde Março de 1994.
Efectivamente, as lutas pela legalidade e a Democracia nos serviços prisionais tinham, antes desta data, um carácter esporádico, pontual e, em certa medida, oportunista. A mobilização para a contestação era feita, acima de tudo, em contextos marginais ao próprio sistema. A prová-lo está a desestabilização inerente (quase sempre) à reivindicação de amnistias. Ou seja, os reclusos, amálgama heterogénea de interesses diversos (e, não raras vezes, opostos), apenas eram mobilizáveis para processos que tivessem como horizonte uma eventual libertação iminente.
Há dois factores determinantes para a alteração desta tendência: por um lado a prisão de militantes da FUP/FP25, que vieram insuflar a contestação de uma certa substância política; e, por outro, a massificação da prisão que, através da sobrelotação, vem concentrar mais a população prisional, anulando aos poucos a heterogeneidade da sua composição social. A própria degradação das prisões, a redução de certos privilégios oferecidos de bandeja a alguns reclusos, vem colocar todos no mesmo barco, diminuindo as diferenças de classe que, anteriormente, os dividiam. O selo de classe começa, cada vez mais, a ficar à porta da cadeia, transformando todos os oprimidos, alargando a componente clássica da exclusão social.
Pela primeira vez, na história da luta dos presos contra o sistema, em Março de 1994, embora todo o apoio explodisse pela reivindicação "primitiva" de uma amnistia, começa, no entanto, a dar passos em terrenos novos. Confronta-se o poder político com a sua própria hipocrisia ao não dar cumprimento às leis que regem as prisões (nomeadamente, a Lei 265/79); exige-se a implementação de contactos íntimos entre conjugues; o pagamento de salários dignos; a democratização do próprio sistema.
No rescaldo, obriga-se à demissão do então director-geral, Fernando Duarte, e acaba-se com a censura à correspondência. São estes os mais importantes marcos desta luta que, num crescendo, criam a ilusão de uma certa abertura, materializada mais em questões conjunturais do que em fenómenos estruturais. Porque, no fundo, o sistema continua igual a si próprio, herdeiro natural da prática carcerária do fascismo.
A experiência acumulada nesta luta, acrescida da politização de um sector importante dos reclusos, começa a gerar fenómenos novos, verificáveis no surgimento de um certo esboço de organização até então alheio ao movimento. Despontam, a partir daqui, vários grupos informais cuja composição é marcada por indivíduos que tiveram um papel importante na luta contestativa e/ou caracterizados por níveis culturais acima da média (mesmo da média verificada na chamada "sociedade livre").
Toda esta (digamos assim) dinâmica cívica, vem colocar no terreno um conjunto de experiências novas e enriquecedoras. Por exemplo, no EP de Sintra começa-se a publicar um jornal que, fugindo às malhas apertadas do controlo censório do sistema, questiona a "Justiça" e as prisões, dinamizando um conjunto muito positivo de iniciativas culturais e, mesmo, organizacionais, como é o caso da Comissão de Bem Estar dos Reclusos que rompe, de forma inequívoca, com o pretenso associativismo herdado do fascismo, as tristemente célebres "associações de reclusos" (que não eram mais do que instrumentos das direcções penitenciárias e factores de exploração dos detidos).
Em Coimbra, em Vale de Judeus, em Tires, em Alcoentre, assiste-se a um movimento de abaixo-assinados, petições e reclamações, que obrigam o próprio sistema a instituir, embora demagógica e burocraticamente, o Livro de Reclamações.
Mas, não se fica por aqui o movimento, avança-se decididamente para o terreno da reivindicação política ao lançar-se a palavra de ordem UM CIDADÃO UM VOTO, UM RECLUSO UM ELEITOR, que tem como reflexo a participação eleitoral, através do voto antecipado, já nas eleições legislativas de 1995.
Chegamos a Março de 1996, já com uma sólida experiência política e uma relativamente consolidada fermentação ideológica, estes grupos dispersos unem-se na grande corrente que então desponta, pela amnistia e um perdão parcial de penas, unificando o protesto, elevando-o à contestação ideológica do próprio sistema, através da consigna RECLUSÃO COM DIREITOS!
A constituição da ACED, bem como a publicação (pela primeira vez na história prisional) de um boletim periódico sem qualquer tipo de amarras ao sistema, inquestionavelmente independente do poder penitenciário, vem abrir uma nova etapa na luta pelos direitos humanos nas prisões portuguesas.
Pela primeira vez, uma associação pelos direitos humanos nasce "de dentro para fora", através da experiência e acção de um grupo de militantes presos. Processos paralelos que caracterizam uma nova realidade que deixa os responsáveis prisionais sem norte, absolutamente a reboque dos acontecimentos, desconfortados pela aplicação prática de um novo tipo de democracia: a Democracia dos cidadãos, participativa e mobilizadora.
A democracia formal e parlamentar, manifesta-se completamente incapaz de se demarcar da pré-história prisional. Nem consegue, sequer, acompanhar as novas filosofias penitenciárias em experimentação em (quase) toda a Europa, reduzida à mera gestão corrente, centrando toda a sua política em folclore demagógico e circo mediático. E os deputados da nação, eleitos e pagos pelo povo, continuam a sua greve self-service às questões que envolvem a "Justiça" e as prisões. Excepção, aparentemente única (perdoe-se-me o pleonasmo), para o deputado Mota Amaral que, contra a corrente, tem vindo a denunciar o pântano inumano em que se encontram atolado os reclusos e as suas famílias.
Pelo seu amadurecimento, o movimento de revolta animal (natural em processos de reclusão) eleva-se ao estado mais nobre de uma cidadania esclarecida, pondo a nu a falência de um sistema prisional que não recupera nem ressocializa, como seria a sua "natural" função.
Não se ficando pelas paredes redutoras das prisões, esta nova forma de estar na vida e na luta contra o sistema alarga a sua acção ao exterior, mobilizando sectores até ali alheios aos fenómenos prisionais.
Estamos, pois, confrontados com novas realidades e perspectivas, consubstanciadas na ideia fundamental de que a exclusão é um processo transversal da sociedade portuguesa contemporânea , e que só pode ter uma resposta de momento que intervindo nas causas, mais do que nos efeitos.
A situação nas prisões é absolutamente caótica e inumana. Às penas de prisão decretadas pelos tribunais, somam-se penas acessórias que, num contexto de promiscuidade latente, são traduzidas em infecção de doenças graves e, mesmo, na própria morte.
É sabido (ao contrário do que diz o ministro Jardim) que 80% da população prisional é constituída por toxicodependentes, sendo que, à volta de 30% são seropositivos. No entanto, os responsáveis limitam-se a acções de fachada e propaganda, desbaratando os dinheiros públicos na construção de supostas "alas livres de drogas" que, conforme é já reconhecido por vários especialistas, em muito pouco contribuem para atacar de frente o trágico problema da toxicodependência. E isto, ao mesmo tempo que discriminam toxicodependentes e seropositivos, construindo entraves artificiais à sua colocação em postos de trabalho de regime aberto e obstando à sua participação em cursos de formação profissional.
Consideramos fundamental erguer um grande debate nacional em que participem especialistas, toxicodependentes, seropositivos, organizações não governamentais e, de uma forma geral, o conjunto da sociedade portuguesa. Temos uma posição muito clara: SOMOS PELA LEGALIZAÇÃO CONTROLADA DE TODAS AS DROGAS. E, ao contrário do que diz o ministro Sócrates, não o somos por "estar na moda" - parece-nos que o que tem estado na moda é a repressão criminosa sobre os toxicodependentes, responsável pela escandalosa sobrelotação que se verifica nas nossas prisões.
À droga dos consumidores, junta-se, agora, a perversa droga dos juízes: a prisão! Por dá cá aquela palha, enfia-se no cárcere um desgraçado de um toxicodependente ou de um pequeno traficante, enquanto que os tubarões (acobertados pela grande finança internacional) continuam absolutamente impunes. Sim, porque já toda a gente sabe que os circunstancialismos do berço e as nuances económicas é que determinam quem vai parar à prisão, ou quem fica de fora. E o escândalo é tão grande, que já obrigou o próprio Presidente da República a tecer alguns reparos moralizadores.
Para além desse outro escândalo que é 40% de presos preventivos, e o maior cumprimento de penas efectivas em toda a Europa comunitária. Muito sinceramente, temos vontade de tomar nossas as palavras do sr. José Roquette, em relação aos árbitros, e passar a exigir a presença de Juízes estrangeiros nos nossos tribunais!
Por outro lado, a sobrelotação não é, de facto, o principal problema das nossas prisões. O que realmente é preocupante é a absoluta falta de cultura democrática que caracteriza a acção dos responsáveis, e a permanente violação das leis e dos direitos de cidadania dos cidadãos em cumprimento de medidas privativas de liberdade. A juntar a este caldo persecutório, somos confrontados pela permanente impunidade de que beneficiam todos os delinquentes ao serviço da instituição penitenciária: directores, chefes, guardas e outros carcereiros.
Os cidadãos são presos por violarem as leis, sendo permanentemente confrontados com o incumprimento das leis que regem a sua própria detenção. As medidas flexibilizadoras, nomeadamente, saídas precárias, RAVI, RAVE e liberdade condicional, são utilizadas como instrumentos de chantagem, inclusive pelo próprio director-geral dos serviços prisionais que utiliza o RAVE como forma de punir os seus opositores e premiar os seus protegidos arranchados.
Perante este cenário, mais que conhecido de todos os responsáveis políticos, somos confrontados com a apatia dos órgãos de Estado, para quem os reclusos são, seguramente, sub-humanos, escumalha que importa esquecer. E, mais que isso, importa esmagar! transformando comportamentos desviantes em cidadãos forçosamente desviados.
A tão propalada política de obras e recuperação de espaços prisionais, não é mais do que a lógica pretensamente matemática de "sumir". Ou seja, no mesmo espaço (já convenientemente "recauchutado"), colocam-se o dobro e o triplo dos reclusos. E chega-se à falta de vergonha de se inaugurarem, com pompa e circunstância, espaços velhos, em que se fizeram obras, como se fossem construção de raíz.
As queixas contra responsáveis e servidores menores, amontoam-se na conveniência burocrática dos serviços de inspecção e tribunais, nunca se sabendo o seu desfecho, alimentando o esquecimento público, confirmando a absoluta impunidade da instituição penitenciária.
Só a acção cívica e civilizada de um punhado de activistas (que são vistos pelo poder como inimigos do Estado, quando efectivamente o que são é inimigos do estado das prisões) é que tem impedido que as cadeias se transformem em barris de pólvora. Que fique claro: no dia em que quiséssemos pôr as cadeias em "pé de guerra", bastava apenas fazer uns quantos telefonemas e expedir umas tantas cartas. E, se não o fizemos ainda, tal não se deve a qualquer tipo de deferência para com os responsáveis penitenciários. É que, ao contrário destes, temos sentido de responsabilidade e queremos, efectivamente contribuir para melhorar a vida dos cidadãos em reclusão. No entanto, fica o "aviso à navegação": a não serem tomadas medidas, as cadeias portuguesas poderão brevemente vir a ser dominadas por focos de instabilidade de consequências imprevisíveis! Não venham, depois, desenterrar fantasmas e apontar "agitadores"...
Penso que a minha presença física, e uma intervenção oral não sujeita aos rigores discursivos da escrita por tal, mais livre e espontânea, seria muito mais interessante do ponto de vista do debate de ideias. Mas, como já vos referi, o poder penitenciário é avesso a uma cultura democrática e a uma cidadania participativa. O 25 de Abril só foi há 25 anos, os velhos vampiros de que o Zeca nos falava continuam, infelizmente para o nosso futuro colectivo, a ter grande protagonismo na sociedade portuguesa. Agora, evidentemente, travestidos de "democratas"...
Não quero, de forma alguma, ocupar o vosso tempo, quando é fundamental que ouçam a voz avalizada de personalidades de reconhecido mérito que vos honram (nos honram a todos) com a sua presença.
E, para terminar, gostaria de colocar ao vosso critério duas medidas prioritárias e dois debates urgentes.
1) A institucionalização de um Observatório sobre as Prisões.
2) A responsabilização de Ministério da Saúde e do Serviço Nacional de Saúde pela saúde nas prisões.
3) Discussão pública das políticas de gestão de penas.
4) Discussão pública das políticas de experimentação e de implementação de penas alternativas à prisão.
Muito obrigado pela vossa atenção. O meu reconhecimento pela vossa solidariedade.
Cárcere de Sintra, 24 de Fevereiro de 1999
António Alte Pinho
(Secretário-Geral da ACED)
Para que serve o perdão de penas?
Como surge e a que propósito a questão do perdão de penas a respeito das comemorações do 25 de Abril de 1974? O que justifica que um assunto de cariz humanitário, a atenção à vida dos presos, se imponha na agenda política? O que significam os bailados políticos de avanços e recuos entre "talvezes", "parece que sim" e outras desconversas consensuais? Ao que vem substantivamente o consenso de que tanto se fala e nada se sabe?
Resumo da resposta:
Da mesma maneira que a verdade sempre vêm ao de cima, a humanidade essencial também: raramente mas inabalável.
A razão básica, neste caso é a seguinte: não nos veremos livres dos nossos semelhantes que foram considerados criminosos aprisionando-os: é preciso matá-los mesmo.
E se não tivermos coragem de organizar campos de extermínio, como fizeram e fazem vários regimes inclusive modernos e do século XX, se quisermos ser civilizados, temos de tratar dos nossos presos.
Portugal, rompeu a tradição Inquisitorial, tornando-se dos primeiros países do mundo a acabar com a pena de morte e com a prisão perpétua e por isso nos orgulhamos, como da bandeira e dos outros símbolos nacionais. Mas apesar de termos um código penal com penas teoricamente mais leves que outros países europeus, a prática mostra-nos uma inaudita percentagem de 40% de presos não condenados e, no fim a prática revela a perversidade da teoria e as penas efectivamente cumpridas acabam por ser as mais longas e duras da Europa.
Tudo se passa como se a tradição inquisitorial continuasse a minar a Justiça portuguesa por vias travessas, por desinteresse político, contra a tradição moderna mais recente. Por processos kafkianos, que os responsáveis conhecem mas preferem que nem se saiba ou se fale, os Direitos Humanos são cronicamente violados nas cadeias portuguesas e isso é internacionalmente conhecido e denunciado.
Recentemente Sua Excelência o Presidente da República fez-se eco desta preocupação internacional. O sistema de Justiça, incapaz de continuar a manter a face, entra em crise assumida, sem solução à vista. E calha no calendário as bodas de prata da revolução democrática.
A impotência tolhe os responsáveis políticos, conscientes de não terem feito o trabalho de casa no sector da Justiça. A vergonha impede-os de falar directamente sobre o assunto. O tema mais simpático e eleitoralmente suportável que encontraram foi "o consenso".
À volta dele se teceram tantas e tão enredadas teias que o assunto obrigou a Presidência da República a assumir as despesas da acção, perante partidos em greve self-service. De facto, o regular funcionamento das instituições pode estar em risco face a um demissionismo sobre um assunto iminentemente político como é o do controlo da violência, da criminalidade e da Justiça.
Eis como o erro do actual regime democrático de ter metido debaixo da carpete as políticas criminal e prisional, abandonadas a aparelhos corporativos, salta como um problema nacional que não é mais possível responsavelmente escamotear.
Debatamo-lo pois.
O perdão de penas visto por um cidadão
O perdão de penas não é uma amnistia nem deve ser um segundo julgamento dos crimes atribuídos em juízo competente. Quem deve ter ponderado a gravidade do crime, com conhecimento de causa e ponderação, foi o juiz. Não é justo julgar outra vez as pessoas.
Se o sistema fosse perfeito e digno da nossa vontade de sermos civilizados, modernos e humanistas, não deveria haver lugar a perdões ou medidas de clemência. A razão porque o Estado deve decidir o perdão de penas não é por caridade mas para utilizar tão correctamente quanto possível um dos instrumentos de política criminal e de segurança. Trata-se de aliviar a tensão dentro das cadeias e no sistema judicial no seu conjunto, incluindo no seio do sistema político onde a hipocrisia a este respeito está a subir a níveis intoleráveis e públicos, está a transbordar. Trata-se também de dar um sinal de esperança na Democracia e no estado aos reclusos e respectivos familiares e amigos, na convicção de que isso possa ter, como terá, consequências na atitude necessária ao esforço de reinserção.
Queixam-se, com toda a razão, sectores do sistema de segurança que alguns dos que vão ser libertados reincidirão em breve. Depois de passar pela prisão, é sabido, isso acontece frequentemente. Por isso se chama à prisão a Universidade do crime e por isso a desmoralização dos serviços educativos e de reinserção social para reclusos impede que funcionem com um mínimo de eficácia.
Essa é mais uma boa razão para nos apressarmos na linha de encontrar formas de controlo da criminalidade alternativas à prisão, já que esta não parece funcionar. Porém nada tem a ver com os objectivos enunciados da medida de perdão de penas: aliviar o sistema, como ciclicamente legitimamente também fazemos com o nosso esquentador, e dar um sinal de esperança aqueles que se viram enredados nas malhas da justiça disfuncional, persecutória e injusta que não temos sabido democratizar ao ritmo de outros sectores da sociedade portuguesa.
Contra greve self-service dos deputados à discussão das medidas de clemência para comemorar o 25º aniversário da revolução dos cravos co-responsáveis pelo caos judicial e pelos atentados crónicos aos Direitos Humanos nas prisões.
Na página da Internet do Ministério da Justiça alguém após uma pergunta: o que é e para que serve a amnistia e o perdão de penas? Não obteve resposta. Porque a resposta não é administrativa, é política. Como muito bem sabe o deputado Mota Amaral que há vários anos entrevê a oportunidade para lançar uma medida de clemência
Sendo assim, porque é que dos deputados a única coisa que se ouve é dizer que só alinham se houver consenso, abrindo campo para que um miúdo com mentalidade de avô e espírito exibicionista desenvolva as suas acrobacias demagógicas sem resposta política? Será por preguiça? Ou para se defenderem da concorrência aos tachos que placidamente ocupam? Ou por mera e simples incompetência?
Seja pelo que for a gravidade da situação obrigou o garante do regular funcionamento das instituições, o PR, a tomar a iniciativa perante a política de silêncio que a próxima campanha eleitoral parece inspirar a paramentares destacados e, pelos vistos, democraticamente irresponsáveis - para defesa de interesses que certamente não são públicos nem os do Povo português.
Nós apoiamos as posições do deputado Mota Amaral e do Presidente da República: são os valores porque se regue a Nação que estão em causa e que precisam da participação consciente de todos os portugueses.
A discussão do perdão de penas deve ser democrática e alargada e não um mero exercício de baixa política. Por isso nos batemos e decidimos organizar um seminário sobre o assunto, com a colaboração de outras organizações e personalidades, numa colectividade da Ajuda: o Chinquilho fundado em 1928. Apelamos a que outras iniciativas se organizem para também assim comemorarmos os 25 anos do 25 de Abril, em liberdade e sem medo, lutando pela Democracia que queremos viver.
Por vezes um jornalista e outro procuram colocar nos jornais notícias cuidadosas sobre a vida prisional: morreu um recluso de 1,80 m enforcado numa carrinha celular de 80 cm de altura, escreve num dia. No outro dia informa que peritos informaram o jornalista ser difícil que, sem ajuda, isso possa acontecer. No terceiro dia falta matéria. A vida de um recluso é banalizada e os jornalistas que se preocupam com tais informações fazem-no por espírito cívico. Noutro tempo houve um responsável do sistema prisional que foi ameaçado de morte. Por quem? Por quê? Não é importante saber? O nosso homem demitiu-se e todos ficámos avisados. É isto que é segurança? Como se compreende que os traficantes usem as prisões como se fosse o Casal Ventoso? Lá dentro não é crime matar vários jovens por semana?
A segurança é um assunto de Estado e da Democracia, principalmente quando os serviços não dão conta no recado. Nas polícias houve um plano de formação e de promoção profissional e social. Porque é que coisa semelhante não aconteceu nas prisões? A resposta é que as prisões são tratadas, desumana e erradamente, como se fossem um poço sem fundo onde se enterram os problemas com as pessoas. Por isso as prisões se tornaram duma tentativa de ajudar a resolver problemas de segurança para um dos maiores problemas de segurança. É certo que se conhecem situações piores: os campos de extermínio dos regimes totalitários ou o nosso Tarrafal. Nem por isso a denominada universidade do crime é mais aceitável: é preciso garantir aqui um insucesso na aprendizagem maior do que aquele de que somos capazes nas escolas propriamente ditas.
O que é a prisão?
As prisões portuguesas são herdeiras directas do Tarrafal, que passaram incólumes para a Democracia, i.e., desde dos anos 30 que não se repensou o sistema prisional e desde os anos 60 que nele se deixou de investir. Não há agora presos políticos mas há muita juventude vítima do flagelo da política proibicionista levada a cabo a nível global.
A prisão é um mundo de junkies pior que o Casal Ventoso no seu pior, só que dentro de paredes altas e guardado por todos os lado. Onde as insuficientes condições de acolhimento e tratamento disponíveis são miseráveis e desumanas. Reconhecimento disso mesmo são as tentativas, vãs, de construir alas livres de drogas, como quem organiza andares modelo para justificar o injustificável: a recusa degradante e vergonhosa de oferecer aos presos toxicodependentes a possibilidade de usarem programas de troca de seringas, tal como fora das prisões já é possível, com sucesso para a saúde pública. A guerra para minorar artificialmente, através da manipulação da estatística, de facto inexistente, o número de detidos com problemas relacionados com a droga que começou com a recusa oficial do reconhecimento da existência de pessoas presas condenadas por simples consumo de substâncias proibidas e está agora na dimensão do número de presos toxicodependentes, sejam elas 40% ou 80% - tal guerra não aquece nem arrefece a situação equivalente de condenados à morte de uma parte importante dos presos em Portugal. A falta de informação sobre as prisões não é só um sintoma de incapacidade dos serviços é também uma lamentável forma de ocultação da situação real, difícil de imaginar para mentes bem formadas e uma forte limitação à organização do acompanhamento socio-económico dos presos e respectivas famílias.
Quem beneficia da política prisional neo-liberal (laissez-faire em francês e deixa andar em português) da superlotação das cadeias? Quem está mais interessado em não aliviá-las senão os traficantes sem escrúpulos cujo acesso às prisões já nem pode ser oficialmente negado?
As prisões são o Inferno e servem para meter o Diabo no corpo de quem lá entra. São um sistema inadequado para cumprir a tradição que aboliu a pena de morte e a prisão perpétua, de que os Portugueses se orgulham, pois uma vez tornados à liberdade, sem qualquer apoio social, é o Diabo que se solta. Por isso mesmo os juristas que se revêem nesta tradição civilizada têm pugnado para a experimentação e o recurso a penas alternativas à prisão, para que um dia possa ser possível acabar com as prisões, já que estas não são outra coisa senão o último resquício das práticas de tortura medievais.
As prisões são a droga dos nossos magistrados. Prova disso é que tudo quanto lhes apareça pela frente só pensam em colocar atrás das grades: resultado 40% de presos preventivos e, a considerar o crescimento actual, em breve serão a maioria dos reclusos em Portugal. Muitas das decisões dos nossos Juizes não se produzem em torno de uma política criminal informada, que não existe, mas em vez dos sentimentos de vingança e frustração das vítimas de actos anti-sociais, vítimas essas abandonadas à sua sorte, pois o único reparo que merecem dos poderes públicos é o castigo bárbaro do agressor.
A prisão continua a ser um instrumento de repressão classista, como nunca deixou de ser. Só quem não tem recursos sociais, políticos, culturais e económicos para lidar com o sistema de justiça é que vai dentro. Se no que toca ao fisco, que é do interesse directo do estado, as coisas continuam na mesma - a quem tem mais dinheiro aplica-se na prática a taxa ZERO sem pudor - o que dizer das prisões, onde o risco de tocar à porta de quem tem poder é mínimo? O que se pergunta é se se está à espera de reeditar a "luta de classes" para que a Democracia funcione e reforme a Justiça? Para quem esteja a imaginar que estamos a agitar fantasmas apenas pedirei para olhar as milícias populares: o problema da segurança não se deve resolver contra a Lei e a Democracia nem no caso das milícias nem no caso das prisões, onde não há lei nem roque.
A iniciativa política para acompanhar o desenvolvimento da sociedade portuguesa é indispensável para quem quer defender a Democracia, também no campo da Justiça, como hoje em dia é geralmente reconhecido e, por maioria de razão, no que diz respeito às prisões. Porquê então o silencio dos partidos em torno do discurso do consenso? Não confiam nas capacidades de debate democrático? Então confiam em quê? No marketing?
As prisões portuguesas são, sabemos hoje e não podemos continuar a ignorar, um campo de morte para muitos jovens que já entram doentes ou adoecem através de contágios, muitos deles antes sequer de serem julgados, resultado da vida sanitária e alimentarmente indigna de seres humanos e da promiscuidade com origem na sobrelotação, por sádica ironia, num país com índice de criminalidade suave.
Se brandos costumes podem, equivocamente, caracterizar o espírito português, não caracterizam certamente a mão pesada e classista da justiça portuguesa. Nem um perdão de penas poderá compensar as estatísticas de forma a podermos ser equiparados aos outros países europeus neste campo.
O que justifica tamanha agressividade e violência do estado sobre os cidadãos criminosos ou apenas suspeitos? De onde vem a desconfiança crónica dos poderosos em Portugal contra o Povo? Se vem do antigamente, como também vêm os discursos do PP e a situação das prisões, é altura de, 25 anos após o 25 de Abril, aplicar corajosamente medidas consensuais como foi a Revolução dos Cravos aos PP e à situação nas prisões e ao que resta do antigamente em muitos outros sectores da vida portuguesa, em particular à brigada do reumático que estagna a Democracia e o debate democrático.
O que tem a comemoração da revolução dos cravos a ver com o perdão de penas?
A Democracia não é o medo dos juristas de abordar estes assuntos, dos políticos em tratá-lo. A Democracia é a confiança no Povo para tomar decisões ponderadas e discutidas, uma vez garantidas as possibilidades de expressão de todos os pontos de vista e, no fim, a votação - porquê consensual? - por maioria para apurar uma decisão tão justa quanto possível.
A Democracia não se tem preocupado com a situação calamitosa das prisões portuguesas, que são objecto de condenação de vários organismos internacionais de grande credibilidade ao nível da defesa dos Direitos Humanos. As prisões são a vergonha da Democracia portuguesa e um cancro do nosso sistema de Justiça, como já teve que insistir o PR. Os partidos, nem para comemorar a liberdade de Abril, nem simbolicamente assumem a coragem desses tempos heróicos - se se estivesse à espera do consenso para se fazer o 25 de Abril ainda hoje estaríamos à espera que o PP o achasse conveniente.
Raros são os momentos históricos em que a Democracia e a Liberdade se conjugam. Foi assim no 25 de Abril de 1974 e no primeiro de Maio seguinte: quem os viveu nunca mais poderá olvidá-los. Na comemoração das bodas de prata da Revolução dos Cravos simbolicamente também deveríamos reunir Democracia e Liberdade: o perdão de penas sem exclusões nem discriminações seria uma boa maneira de mostrar aos portugueses que também a Justiça em Portugal vai no bom caminho.
A nossa associação, resultado da iniciativa cívica de um grupo de presos, com muita honra, assume com todas as suas forças, e com apoio de outras associações e personalidades, a responsabilidade de organizar um debate sério e aberto a todos sobre a situação das prisões e sobre o sentido do perdão de penas a que os Portugueses têm direito para melhorar as condições de segurança do País, dia 25 de Fevereiro, no Chinquilho da Ajuda, associação popular fundada em 1928. Estão desde já convidados todos que tenham uma opinião sobre a matéria ou queiram passar a ter uma posição fundamentada, debatida democraticamente.
A Associação Contra a Exclusão pelo Desenvolvimento (ACED) propõe duas medidas prioritárias:
1) A institucionalização de um Observatório independente para as Prisões, competente para produzir numa base continuada estudos sociais, económicos e sanitários sobre os mundos prisionais.
2) A responsabilização do Ministério da Saúde e do Serviço Nacional de Saúde pela saúde dentro das prisões, já que os Serviços Prisionais obviamente não têm condições de tutelar actos médicos e o resultado está à vista.
Propõe ainda dois debates urgentes:
1) Discussão pública das políticas de gestão de penas
Discussão pública das políticas de experimentação e de implementação de penas alternativas à prisão.
2) Julgamos antes de mais que a questão peca por excesso e é claramente indutora. Os problemas do sistema prisional português são difíceis e complexos mas não são necessariamente "uma vergonha nacional".
Vergonhoso seria nada ter feito nestes quase 4 anos de governação e já existe um caminho percorrido neste âmbito que só nos dignifica.
Destacamos pela sua importância a Lei 36/96, de 29 de Agosto que permite que os cidadãos condenados em pena de prisão que padeçam de doença grave e irreversível em fase terminal beneficiem da modificação da execução da pena mediante colocação no seu de família ou em estabelecimento hospitalar, bem como o Decreto-Lei 46/96, de 14 de Maio, que veio estabelecer um regime excepcional para a realização de obras, aquisição de bens e serviços e recrutamento de pessoal para a DGSP.
A profunda reformulação que vem sofrendo o sistema prisional, que acusava no início da legislatura, e acusa ainda, graves deficiências e lacunas, vem sendo cumprida sistematicamente, quer ao nível da construção, remodelação ou beneficiação de estabelecimentos, ainda de um conjunto muito amplo de medidas nos domínios da alimentação, da saúde e da reinserção dos reclusos.
No que respeita o sistema prisional continuarão ou concluir-se-ão obras em muitos estabelecimentos prisionais no sentido de aumentar a sua lotação, mas também de melhorar as condições de habitabilidade e a construção de novas alas de saúde, educação e formação e instalação das primeiras zonas económicas prisionais (ZEP).
Em termos de Grandes Opções do Plano para 1999 está previsto: a reconstrução e adaptação de estabelecimentos militares a estabelecimentos prisionais, bem como o lançamento de novos estabelecimentos em Viseu, Carregueira, Setúbal e Porto (estabelecimento feminino), constituem factores essenciais para fazer face à sobrelotação do sistema prisional. Serão igualmente concluídos os trabalhos de reformulação da lei de execução das penas, reforçado o conjunto orgânico do sistema de saúde, educação e formação no interior dos estabelecimentos, em continuação da política já seguida nos anos anteriores, sendo admitido mais pessoal de segurança, pessoal médico e de enfermagem e pessoal administrativo, quer para os novos estabelecimentos, quer para reforço dos estabelecimentos existentes.
continuará a política de trabalho dos reclusos em meio aberto, com a celebração com protocolos com entidades públicas e privadas; no que respeita Reinserção Social, para além da execução da nova política de menores, com a progressiva passagem dos problemas das crianças em risco para o Ministério do Trabalho e da Solidariedade, será dada prioridade às medidas alternativas à prisão a executar na comunidade.
serão revistos alguns aspectos da lei orgânica do IRS, de modo a centrar a sua actuação nos aspectos verdadeiramente prioritários;
por outro lado, arrancará o plano de amortização de vários imóveis pertencentes aos serviços prisionais e ao IRS, que permitirá carrear meios para reforçar os investimentos e fazer nestes sistemas, nomeadamente o lançamento de novos centros prisionais de grande capacidade.
O Partido Socialista na Assembleia da República continuará a conferir o seu total apoio às políticas governamentais nesta área e permanecerá vigilante e desperto para os múltiplos problemas que os presos enfrentam sem descurar contudo que nesta sede as questões são transversais a várias áreas pelo que não é só a justiça que tem responsabilidade no sector, urge também conciliar e articular esforços com o Ministério da Saúde e Educação e com todos os operadores judiciários.
Como bem observa André Kunh, reputado criminólogo, "A superlotação prisional é um fenómeno que encontramos em todos os Estados ocidentais e tornou-se, de resto, um dos problemas mais preocupantes dos sistemas penitenciários nacionais. As suas consequências são inumeráveis".
Pensa-se geralmente que a evolução da população prisional se explica simplesmente pela evolução da criminalidade. Ora, o aumento do número de detidos tanto pode decorrer do crescimento do número de condenados como de um agravamento de penas, e, este último é originado quer por penas de privação da liberdade cada vez mais longas, quer por uma progressão da taxa de penas efectivas em relação às outras sanções.
Resposta do Grupo Parlamentar do PCP
transmitida por Maria Odete dos Santos
A situação degradante nas cadeias portuguesas levou o PCP a programar já há alguns anos visitas a várias cadeias, que conduziram, inclusivamente, a elaboração de questões ao Governo da altura.
Também integrados na Comissão de Assuntos Prisionais os deputados comunistas visitaram estabelecimentos prisionais.
Aquando da discussão do Orçamento, anualmente, uma atenção especial é dedicada às verbas do Ministério da Justiça dedicadas ao sistema prisional.
As transformações do sistema prisional, no sentido da sua humanização e de garantia dos direitos dos reclusos, passam também por uma nova lei relativa aos Tribunais de Execução de Penas que reputamos urgente.
serão revistos alguns aspectos da lei orgânica do IRS, de modo a centrar a sua actuação nos aspectos verdadeiramente prioritários;
por outro lado, arrancará o plano de amortização de vários imóveis pertencentes aos serviços prisionais e ao IRS, que permitirá carrear meios para reforçar os investimentos e fazer nestes sistemas, nomeadamente o lançamento de novos centros prisionais de grande capacidade.
O Partido Socialista na Assembleia da República continuará a conferir o seu total apoio às políticas governamentais nesta área e permanecerá vigilante e desperto para os múltiplos problemas que os presos enfrentam sem descurar contudo que nesta sede as questões são transversais a várias áreas pelo que não é só a justiça que tem responsabilidade no sector, urge também conciliar e articular esforços com o Ministério da Saúde e Educação e com todos os operadores judiciários.
Como bem observa André Kunh, reputado criminólogo, "A superlotação prisional é um fenómeno que encontramos em todos os Estados ocidentais e tornou-se, de resto, um dos problemas mais preocupantes dos sistemas penitenciários nacionais. As suas consequências são inumeráveis".
Pensa-se geralmente que a evolução da população prisional se explica simplesmente pela evolução da criminalidade. Ora, o aumento do número de detidos tanto pode decorrer do crescimento do número de condenados como de um agravamento de penas, e, este último é originado quer por penas de privação da liberdade cada vez mais longas, quer por uma progressão da taxa de penas efectivas em relação às outras sanções.
Resposta do Grupo Parlamentar do PCP
transmitida por Maria Odete dos Santos
A situação degradante nas cadeias portuguesas levou o PCP a programar já há alguns anos visitas a várias cadeias, que conduziram, inclusivamente, a elaboração de questões ao Governo da altura.
Também integrados na Comissão de Assuntos Prisionais os deputados comunistas visitaram estabelecimentos prisionais.
Aquando da discussão do Orçamento, anualmente, uma atenção especial é dedicada às verbas do Ministério da Justiça dedicadas ao sistema prisional.
As transformações do sistema prisional, no sentido da sua humanização e de garantia dos direitos dos reclusos, passam também por uma nova lei relativa aos Tribunais de Execução de Penas que reputamos urgente.
Oradores convidados:
Deputado Mota Amaral
Professor Manuel Villaverde Cabral
Procurador-Geral Adjunto Eduardo Maia e Costa
Convidados institucionais:
Presidência da República declinou por carta
Presidência da Assembleia da República declinou por carta
Primeiro Ministro declinou por carta
Bastonário da Ordem dos Advogados - nomeou representante: António Maria Pereira (de que não podemos confirmar presença)
Sindicato dos Magistrados do Ministério Público
Sindicato dos Funcionários Judiciais
Associação Sindical dos Magistrados
Provedor de Justiça
Ministério da Justiça
Direcção-Geral dos Serviços Prisionais
Helena Cidade Moura (Civitas) - Fez-se representar
Menezes Ferreira (SOMA associação portuguesa anti-proibicionista) ausente por motivos de força maior
Teixeira da Mota (Fórum Justiça e Liberdades)
Partido Socialista
Grupo Parlamentar do Partido Socialista (representado no seminário)
Partido Social Democrata
Grupo Parlamentar do Partido Social Democrata
Partido Comunista Português
Grupo Parlamentar Partido Comunista Português (resposta por fax)
Partido Popular
Grupo Parlamentar do Partido Popular (declinou por telefone)
Partido Socialista Revolucionário
União Democrática dos Trabalhadores
Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses (PCTP/MRPP)
Política XXI
A SAÚDE NA PRISÃO
Quando se iniciou a revolução industrial, embora se desconhecessem cientificamente as razões, tornou-se evidente para quem então se preocupava com a Saúde que a sobrepopulação, a vivência de um elevado número de pessoas num pequeno espaço, em deficientes condições higiénicas, era um factor relevante de doença e morte.
Hoje conhecem-se as doenças, os seus mecanismos de transmissão, mas um sistema penal anacrónico, torna as prisões portuguesas um centro incubador e transmissor de doenças. Doenças graves, frequentemente mortais, que afectam uma população jovem.
A situação não é resolúvel construindo mais cadeias estas com condições de detenção compatíveis com o desenvolvimento social e económico do País. A legislação que faz do toxicodependente um criminoso e não um doente, que excluindo o afasta do tratamento e da recuperação social, que ao segregar e perseguir agrava a sua condição de saúde e o afasta do diagnóstico e tratamento das tão frequentes doenças transmissíveis concomitantes à toxicodependência, a legislação iníqua e ineficaz em vigor, constitui a primeira causa da gravíssima situação existente quando se analisa a saúde dos detidos em prisões portuguesas.
A gravíssima epidemia de tuberculose multiresistente, seguramente a maior que ocorreu na Europa, e a elevadíssima mortalidade por SIDA, são evidencias nas prisões portuguesas que nos cobrem de vergonha, como cidadãos de um Pais que celebra os Direitos Humanos.
Médico, Professor de Saúde Pública
Fac. de Ciências Médicas, Univ. Nova de Lisboa
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Quota de apoio 5 000$
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Ap. 1928
1057 Lisboa
Apoio à iniciativa do deputado Mota Amaral sobre a
utilização do perdão de penas a pretexto das comemorações do 25º aniversário da
revolução de Abril
Reclusão com Direitos
Segurança com Cidadania
Democracia sem Exclusões
Patrocínios:
Grupo Sport Chinquilho Cruzeirense
Junta de Freguesia da Ajuda
Restaurante Fidalgo (Bairro Alto) http://members.xoom.com/fidalguices
Sol de Algés