SOS PRISÕES
ano III / nº 21 / 15 de janeiro de 1999 mensário preço 150$00
democracia sem
exclusão
Perdão sem excepção!
Por um Perdão Prático de Penas
editorial
E
is que no despertar deste novo ano legitimas esperanças surgiram entre muros, legitimas esperanças aliadas a a já antigas e legitimas pretensões.Não poderia existir melhor enquadramento temporal para voltar a propor reflexão sobre um perdão parcial de penas. Aproveitou-se a tríade comemorativa do aniversário da Declaração dos Direitos Humanos, da quadra natalícia, e, finalmente, do aproximar das comemorações dos 25 anos do 25 de Abril.
Mais do que o fundamental humanismo inerente ao renascimento do debate em volta deste tema, à que referir um bom senso puramente racional, mesmo o mais frio e metódico. Quero com isto dizer que a concessão de um perdão parcial de penas, dadas as actuais condições degradantes a que está submetido o nosso sistema prisional, acaba por ser mais prática do que propriamente uma medida de cariz humanista.
Contudo, será ainda de concordar em parte com as vozes mais cépticas em relação a esta concessão, quando dizem que esta medida não irá acabar com os males da Justiça e do sistema prisional. Concordo com o discurso, mas não com os argumentos, pois este perdão não é uma medida resolutiva, mas sim uma fundamental medida atenuante, que, obrigatoriamente deverá de imediato ser seguida por uma profunda restruturação da Justiça portuguesa. Este perdão, antes de tudo, é absolutamente vital sob o ponto de vista prático. É um rasgo de tolerância absolutamente sensata.
Rui Marques
Conferência de Imprensa da ACED
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A História e a vida de uma prisão
pag. 9
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SOS PRISÕES Janeiro 99
A
ACED organizou uma conferência de Imprensa no dia 28 de Dezembro para manifestar o seu apoio à iniciativa parlamentar do deputado Mota Amaral, para pedir que o consenso que as medidas de clemência a adoptar não sirvam para continuar a evitar-se o debate sobre a calamitosa e vergonhosa situação dos prisioneiros em Portugal e para manifestar o parecer do grupo de trabalho para as prisões da ACED sobre por um lado a não discriminação dos detidos no que toca às medidas de clemência e por outro lado a necessidade de que a lei seja interpretada de forma mais "europeia" ou civilizada, para que deixemos de ser o país da Comunidade Europeia com penas teóricas mais baixas e penas efectivamente cumpridas mais altas, sem que ninguém descortine objectivamente nenhum surto de criminalidade organizada aos níveis sociais a que a repressão se abate.Estiveram presentes a agência Lusa, o Correio da Manhã, a Rádio Nova, a Rádio Capital, a Rádio Renascença/RFM, a TVI e a SIC, tendo esta última estação de televisão enviado para o ar um directo à hora de almoço sobre o assunto, com intervenção de membros da ACED.
Na mesa da Conferência de Imprensa estiveram connosco Menezes Ferreira da SOMA - Associação Anti-proibicionista e Maria José Campos, da Abraço, que também convocou a conferência de imprensa, e a quem devemos agradecimentos pela solidariedade. Estamos convictos de que a convocatória múltipla foi um contributo importante para o sucesso da acção. Ambos os convidados usaram da palavra para explicar aos jornalistas as preocupações das respectivas associações com a situação nas prisões, por via das causas: a política proibicionista que recobre, na prática, os crescentes lucros da economia negra das drogas é também responsável pela situação de marginalização de muitos toxicodependentes e respectivas famílias, em particular estando na origem, directa ou indirectamente, da reclusão de grandes quantidades de jovens doentes. Por via dos efeitos, na medida em que assim se transformaram as prisões em focos de contaminação da saúde pública num tempo em que as doenças infecto-contagiosas não estão medicamente controladas, pondo em risco não apenas a vida dos recluídos (entre os quais se sabe haver cerca de 1/3 de presos preventivos - outro escândalo da nossa incapacidade nacional de fazer justiça) como, evidentemente, das respectivas famílias, guardas e todos os que de modo profissional ou social entrem ou saiam dos Estabelecimentos Prisionais.
Foram distribuídas pelos jornalistas as duas declarações da ACED e a carta do advogado Fernando Moura, lutador pela democratização da justiça em Portugal, nos fez chegar como demonstração da sua solidariedade. Todas o leitor pode encontrar neste jornal,
O debate com os jornalistas que se seguiu às declarações da mesa foi abrilhantado coma intervenção de dois homens com experiência prisional que explicaram de ciência vivida um pouco dos meandros dos funcionamentos sociais dentro das prisões. Foi de uma jornalista que saiu a ideia de, um dia, se fazer um seminário onde tais funcionamentos possam ser explicados e discutidos com algum pormenor e mais tempo.
Conferência de imprensa da Aced
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SOS PRISÕES Janeiro 99SOS PRISÕES
: UM Pauzinho na engrenagemDireitos Humanos: Um Projecto inacabado
(II)S
endo a problemática dos Direitos Humanos um tema inequivocamente amplo, actual e urgente, parece-me ser de certa forma compreensível que a sua abordagem comporte níveis de consciência e de reflexão bastante diversificados. De facto, se aparentemente a salutar pluralidade das opiniões traduz uma certa omnipresença do tema na realidade social e no espírito de todos nós, também parece útil fazer notar que muitas dessas pseudo-reflexões e pseudo-preocupações se situam ao nível dos discursos hipocritamente correctos e vazios de conteúdo substantivo, na medida em que a utilização do tema dos Direitos Humanos é muitas vezes instrumentalizado para fins retóricos nocivos à efectiva consumação de um projecto que entroniza o valor do primado humano.Assim, tendo em conta o carácter pouco sério e construtivo de muitos discursos que proliferam de forma difusa um pouco por todo o lado, parece razoável empreender um exercício de crítica e denúncia que seja implacável com esse tipo de situações, no sentido de aprofundar os potenciais alcances de um projecto que apesar de inacabado, constitui uma efectiva orientação ética para uma civilização a braços com renovados desafios.
Num outro sentido, e salvaguardando-me de uma postura eventualmente etnocêntrica, importa, finalmente, fazer notar que, o projecto de aprofundamento da democracia, à medida que se torna num empreendimento cosmopolita contextualizado num cenário de uma cada vez mais inequívoca globalização, deve ter como imperativo o diálogo e a interacção dada vez mais aprofundadas entre todos os protagonistas do sistema mundial.
Com efeito, não devemos esquecer que, apesar de tudo, estamos actualmente divididos por dois paradigmas civilizacionais, grosso modo Ocidente versus Oriente, que incluem em si vários perfis éticos cuja validade não deve ser subestimada. Não é pois, de todo razoável que possamos pensar esta questão em termos de uma hegemonia que se deve impor em nome de falsos consensos. A postura imperialista que muitas vezes o mundo Ocidental teima em denotar deve também ser revista, no sentido de uma maior justiça e equidade para várias concepções culturais de Direitos Humanos.
Assim sendo, a questão mais controversa que decorre desta problemática dos paradigmas civilizacionais, está intimamente ligada ao critério da universalidade, dado que é essa característica que constitui a aspiração suprema da concepção dos Direitos Humanos da cultura Ocidental, mas que não coincide com as restantes concepções, dado que estas não formulam os seus valores máximos como universais.
Urge reconceptualizar os Direitos Humanos num sentido multicultural.
continua na pág. 4
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SOS PRISÕES Janeiro 99continuação da pág. 3
É partindo desta constatação e da premissa que concebe todas as culturas como incompletas e problemáticas nas boas concepções da dignidade humana que o conhecido sociólogo Boaventura de Sousa Santos nos propõe uma muito sábia e útil reflexão acerca das questões dos Direitos Humanos. Segundo este autor, a presumível solução passa por uma postura de sensatez e abertura face ao outro, isto é, passa pelo diálogo intercultural que se traduz num conceito aparentemente denso e inócuo, mas que concentra em si os pontos chave desta problemática. A hermenêutica diatópica é, então, o conceito que se baseia na ideia de que os lugares comuns retóricos mais abrangentes de determinada cultura são tão incompletos como a própria cultura a que pertencem, sendo o seu objectivo a ampliação ao máximo da consciência de incompletude mútua, ou seja, a incompletude de uma cultura face a outra.
A hermêutica diatópica pretende, em suma, transformar os Direitos Humanos "numa política cosmopolita que ligue em rede línguas nativas de emancipação, tornando-as mutuamente inteligíveis e traduzíveis"3, o que exige por parte da cultura Ocidental, não mais uma trajectória histórica pautada pelo imperalismo, mas sim um diálogo intercultural que beneficie o grande projecto cosmopolita dos Direitos Humanos.
O desafio é indubitavelmente de grande envergadura e de um arrojo ético singular, contudo a sua validade deve ser preservada e se possível ampliada, pois enquanto projecto, os Direitos Humanos são manifestamente uma realização inacabada e com um longo caminho a percorrer, o que não significa, nunca, um sinal de derrota para a humanidade. É um estímulo que devemos usar, pois, "não tivessem os homens motivos de esperança e não sentissem a atracção por ideais elevados, e as suas vidas adormecidas acabariam por definhar nas águas paradas dos charcos da existência"4.
Helder Raposo
(estudante de sociologia)
3
Boaventura de Sousa Santos «Por uma concepção multicultural de Direitos Humanos» in Revista Crítica
4 António Teixeira Fernandes, op. cit., p.227-228
Justiça sem exclusões
Perdão sem
excepções
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SOS PRISÕES Janeiro 99Associação Contra a Exclusão e pelo Desenvolvimento
Comunicado do Grupo de Trabalho para as Prisões
O
sistema de saúde penitenciário está em permanente colapso, acrescentando à pena de privação de liberdade dos reclusos uma outra bem mais perversa: a possibilidade iminente de uma doença infecto-contagiosa - espectro vertiginoso da morte!Consideramos fundamental dar um novo impulso ao envolvimento dos cidadãos na definição de critérios e políticas no tratamento penitenciário. Até porque, cada vez mais, parece ser claro que um número significativo de personalidades, instituições e anónimos cidadãos se vêm interrogando sobre a questão de saber se a instituição prisional cumpre os propósitos ressocializadores legalmente contemplados pela legislação. A nosso ver não cumpre, e, nesta matéria, já lá vai o tempo em que nos sentíamos a "pregar aos peixinhos". Efectivamente, passada que foi a histeria colectiva da "falta de segurança", que serviu de mote às eleições legislativas de 95, traduzida num reforço de policialização da sociedade e na intimidação de cidadãos tendo como pretexto "interesses de Estado" absolutamente inconfessáveis, abrem-se novos caminhos e novas possibilidades de debate e de intervenção.
Os "sinais" que advêm da previsível aprovação de um perdão genérico de penas, traduzidos na tomada de posições por parte de vários responsáveis políticos, podem ser indicadores de que as prisões, a administração das penas e os direitos de cidadania dos detidos poderão, de novo, ser colocados na ordem do dia, generalizando-se um movimento de opinião favorável às legitimas (e legais) pretensões dos cidadãos em cumprimento de medidas privativas de liberdade.
Pensamos, porém, ser importante (ao contrário do que parece ser o entendimento de certas sensibilidades) que qualquer medida graciosa tenha um carácter amplo e abrangente, independentemente das tipologias dos crimes e das molduras penais aplicadas.
A celebração dos 25 anos do 25 de Abril de 1974, deveria ser assinalada com uma medida extraordinária equiparada a essa outra que se seguiu ao evento a celebrar. Não seria de forma nenhuma excessivo que os senhores deputados tivessem a coragem de decretar a (título gracioso) a OBRIGATORIEDADE DA CONCESSÃO DE LIBERDADE CONDICIONAL RIGOROSAMENTE A MEIO DA PENA, única forma de se assinalar com dignidade e humanismo uma das mais importantes datas da nossa história colectiva mais recente.
Lisboa, 28 de Dezembro de 1998
O Núcleo de Acção do
Grupo de Trabalho Para as Prisões
6 SOS PRISÕES Janeiro 99
Queremos discutir a Justiça e a Democracia em Portugal
Face ao descalabro da Justiça em Portugal qualquer coisa é melhor que o silêncio.
Refiro-me em especial àquilo que mais nos preocupa no SOS - Prisões, neste momento. A discussão e aprovação na Assembleia da República de uma lei de perdão de penas.
Neste processo da iniciativa do deputado Mota Amaral tudo é tão cuidadoso que pode parecer anti-democrático. O documento de proposta de lei só é público pelo que dizem os orgãos de comunicação social. Os partidos preferem não se pronunciar sobre o assunto a não ser da forma mais oblíqua: através de jornalistas e lançando a bola diplomaticamente para outros actores políticos. Quer dizer: nenhum quer assumir o ónus de negar clemência por altura das bodas de prata da revolução dos cravos e nenhum quer assumir o ónus de poder vir a ser acusado da insegurança social.
Como sempre tem acontecido - e por isso a situação da justiça e em particular das prisões chegou onde está em Portugal - todos viram as costas aos problemas, que no fundo são um dos pilares da sociedade e portanto essenciais para definir como democrática ou não democrática a nossa sociedade.
Discute-se, e bem, o défice democrático da Comunidade Europeia. É importante que, ao mesmo tempo, se possa discutir - frontal, directa, politicamente - o défice democrático nacional. Ou será que está tudo bem na Democracia portuguesa?1
Para quem sofre na pele, directa e quotidianamente, as consequências da degradação da justiça democrática em Portugal nas prisões (o risco permanente de contrair doenças, a certeza de estar mais cercado ainda pela economia da droga, a falta de critérios jurídicos e morais com que as penas são conduzidas, o risco de ser vítima de atentados aos direitos humanos da sua pessoa, etc.) o perdão de penas é, indiscutivelmente uma ambição legítima. Cabe à sociedade - e não apenas aos políticos mais influentes - decidir o que fazer daqueles que um dia foram condenados por crimes declarados como factos.
Tal decisão não deve ser apenas confinada ao perdão de penas eficaz numa data festiva. Deve também constituir uma base para que o trabalho de reinserção dos reclusos e ex-reclusos possa ser pensado de forma séria e efectiva, que os interesses das vítimas sejam acautelados, tanto dos crimes condenados em juízo como dos crimes que, por qualquer razão, não foram objecto de uma condenação de um acusado mas produziram vítimas, que a lei se cumpra de forma igualitária, como manda a doutrina, i.e. que não sejam só apanhados os da arraia miúda e estejam impunes aqueles outros, figuras públicas conhecidas, de que todos desconfiam e perante os quais as provas desaparecem.
António Pedro Dores
Presidente da Associação Contra a Exclusão pelo Desenvolvimento - ACED
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1 Recordo o facto do ministro do Equipamento, a propósito da denúncia pública de corrupção generalizada na desde então famosa JAE, ter falado deste assunto, como me lembro que só o pode fazer uma vez. Dentro do seu partido e do governo tal tema foi considerado inoportuno. Também o PP apareceu a fingir que entra no debate sobre o perdão de penas, negando-o sem cuidar os argumentos e apelando aos afectos de repugnância pelos crimes, para logo passar para o défice democrático na CE
7 SOS PRISÕES Janeiro 99
As Prisões na Imprensa
Liberdade condicional a meio da pena
Decretar a concessão obrigatória de liberdade condicional rigorosamente a meio da pena é a única forma de o Parlamento assinalar com dignidade e humanismo os 25 anos do 25 de Abril de 1974, defenderam ontem a Associação Contra a Exclusão pelo Desenvolvimento (ACED) e a Associação Abraço.
Esta medida permitiria pôr em liberdade condicional entre quatro a cinco mil reclusos, no prazo entre seis a oito meses, revelaram em conferência de imprensa.
Com a medida a lotação das prisões desceria para níveis «mais aceitáveis do que as actuais». Para sustentar esta exigência da obrigatoriedade de concessão de liberdade condicional rigorosamente a meio da pena, o presidente da ACED, António Pedro Dores, apontou razões humanitárias, morais, práticas e políticas.
Entre outras, como razões práticas, António Pedro Dores afirmou que esta medida poderia minorar a superlotação das prisões e assumir o objectivo de fazer cumprir a lei que regula a vida prisional. Em relação às razões políticas, António Pedro Dores defendeu que é urgente uma profunda reforma da Justiça e em particular das prisões. «Sem combate à exclusão social não há desenvolvimento», concluiu António Pedro Dores.
Maria José Campos, da Abraço, defendeu que com esta medida «o problema da toxicodependência» - que afecta cerca de 80 por cento da população prisional portuguesa - e as consequentes repercussões negativas de doenças infecto-contagiosas seriam atenuados.
in «Diário de Notícias» 29 de Dezembro de 1998
Menores com todo o tipo de problemas
O colégio Navarro de Paiva «é um bom exemplo da necessidade de clarificação e articulação da intervenção social e da intervenção do sistema de justiça», disse Ferro Rodrigues, quando apresentava as medidas do Governo. Isto, porque, o sistema actual permite que se canalizem para as mesmas instituições menores com problemas de assistência - maus tratos, abusos, abandono, - , menores para delinquentes, vadiagem, mendicidade, prostituição - e delinquentes. Todas estas situações existem no colégio - 18 raparigas e 45 rapazes - , acumuladas com problemas do foro psiquíco.
Céu Neves in «Diário de Notícias», 24 de Novembro de 1998
8 SOS PRISÕES Janeiro 99
A Morte de capa amarela
A chuva cai. Vento do norte a traz. Em companhia do cão castanho que fareja o chão.
O homem da capa amarela calcorreia o caminho. Apressa o passo de encontro ao destino diário dos passos circunscritos.
O homem tem mais consciência da chuva que cai do que de si próprio. É provavelmente isso que o faz percorrer o caminho irregular de encontro ao seu destino.
Será que o homem da capa amarela tem o seu destino?
Ele não o sabe. Ninguém o sabe nesse fim de tarde agreste. Só o sabe o destino. Esse que provavelmente nem existe.
O homem. Sim, o da capa amarela, só sabe que tem de andar. Só sabe que tem de percorrer de encontro à sua própria impossibilidadeem se encontrar.
Morto.
Já morreu este homem de capa embrulhado. E é a recordação de si do que outrora poderia ter sido.
A morte varejeira, torpe e libertadora. Contraditória no próprio acto de se proclamar.
A morte é absoluta e definitiva. Provavelmente morte da sua própria circunstância.
É somente a morte de um homem incluso de uma capa amarela.
Mais além, o cão castanho pára e olha. Olha o homem que atrasou o passo na sua reflexão sobre a morte. Se aproxima e cabeceia, numa carícia de encontro à perna do homem.
Braço estendido, na verticalidade da perna, num dorso que se verga de encontro ao cão que anseia por uma festa.
A mão percorre o pêlo castanho e, no entanto, o homem não o sente.
Apalpa o vazio na constatação da sua morte.
Quando teria ocorrido? Não tem consciência da hora, do dia, do ano da consumação da sua acorporação.
A morte do homem é atemporal como todas as mortes de todos os homens bons.
Ele percebe a razão de não ter dado pela sua morte. O seu apêgo à vida distraiu-o dessa vulgaridade comezinha do apagamento.
Só o cão o sabe. Instintivamente registou à muito a morte de seu dono. Ocorreu precisamente no dia em que o homem se projectou, nesse fim de tarde, de encontro à chuva numa capa amarela.
Alte pinho
Página Cultural
9 SOS PRISÕES Janeiro 99
A HISTÓRIA E A VIDA DE UMA PRISÃO
NA ALEMANHA
Em 14 de Dezembro publicou o Diário de Notícias uma notícia sob o título acima, que se referia ao maior estabelecimento prisional alemão, situado em Berlim-Tegel, e que conta actualmente com 1600 detidos.
Dava-nos conta da existência de uma página na Internet, produto da colaboração entre uma dezena de detidos e pessoas exteriores ao estabelecimento, cujo objectivo era tornar visível ao mundo exterior como funciona esta comunidade, que designam por planeta TEGEL.
Entrando no site fica-se a saber que uma prisão não é um hotel, como há pessoas que erradamente pensam, toma-se conhecimento que lá se fazem experiências duríssimas, o utilizador ao entrar passa à situação de detido, iniciando todo o processo burocrático inerente (desde o registo, entrega de objectos pessoais, recolha de nova roupa e ingresso na cela), depois é a vida lá dentro tipografia, tatuagens, etc., . Fica-se a conhecer uma linguagem diferente, um calão próprio.
Os detidos que participaram sentiram-se fora das grades , transcrevendo as palavras de um deles: "cada click é como se abrisse um buraco no muro, um espaço livre que se abre à minha criatividade".
Esta experiência original, deixou abertas perspectivas para reinserção social.
Para quando algo semelhante nas nossas prisões?
Segue-se a transcrição de um poema de TEGEL, (que podia ser de CAXIAS, CUSTÓIAS, ou outras)
TEMPO DE TEGEL
NÃO É NENHUM
TEMPO DE VIDA
O QUE É AQUI O TEMPO?
ASFIXIA?
TRANSLACÇÃO?
ANSIAR PELO FUTURO, OU,
RESVALAR
PARA A TORRE DE FERRO?
26.NOV.98
M.C.MENDONÇA
10 SOS PRISÕES Janeiro 99
A Sociedade Civil na Net é solidária - uma iniciativa portuguesa
Recordo-me bem da avó Celeste dizer em voz alta, de si para si, que a TV era a sua melhor companhia, certa que nós, os seus netos, que nem tínhamos memória de uma casa sem televisão, dificilmente a compreenderíamos.
Antes da comercialização da TV, o que faria uma senhora, nascida camponesa, dona-de-casa numa Lisboa aldeia dos anos sessenta, presa num terceiro andar sem elevador, dada a dificuldade de locomoção que a obesidade impõe?
Com o tempo, as mulheres vão-se libertando, à sua própria custa, da ditadura das lides domésticas e da imobilidade a que a divisão de trabalho sexual do tempo dos nossos avós obrigava. Vão-se preocupando mais em evitar a obesidade, mas o stress profissional e os cuidados com as crianças acabam por as isolar da vida social, mesmo para as que não têm necessidades especiais. A TV continua, então, a ser uma bela companhia numa sociedade com menos vida social. E não falta mesmo quem acuse a própria TV de ser causa e não efeito.
A Net abre novas oportunidades de escolha para procurar activamente companhia por via electrónica. Através da Net podemos encontrar livros, grupos de troca de opiniões, escolas, bens de consumo, divertimentos e muitas surpresas. Através da Net podemos descobrir almas gémeas: as nossas manias e desejos mais secretos são mais fáceis de afirmar face a um monitor, tipo espelho do ego. Depois basta escolher se se quer assumir a própria identidade ou se nos travestimos com outro nome. Assumidos ou mascarados, por razões psicoterapêuticas ou por curiosidade experimentalista, temos todo um mundo virtual por descobrir. Tudo isto ao preço da TVCabo.
Bom, isto toda a gente sabe. E quem quer usa, quem não quer não usa. Só que, caros leitores, há pelo menos uma ilha onde tudo isto é particularmente bem vindo e, por azar, há problemas especiais de acessibilidade. Muitos deficientes têm, por via da sua condição, necessidades especiais para usar os computadores. É certo que as soluções são, na maior parte dos casos, tecnologicamente muito simples e já estão disponíveis. Todavia as leis do mercado de massas privilegiam as soluções normalizadas em função do cliente ideal e, até porque imagina que isso cobre 99% dos casos de consumidores potenciais, espera que os restantes pagem eles próprios os custos da produção de acessibilidades especiais.
Tal situação deixa um grupo de potenciais utilizadores da NET particularmente necessitado fora da Ciber comunidade, info-excluído. Não apenas é moralmente inaceitável como se trata de uma perda para as possibilidades de consumo e de inovação na NET, bem superiores aos residuais 1% imaginados, dado o empenho que se pode esperar de pessoas cujas oportunidades fora da Net são mais reduzidas que as outras.
Um grupo de militantes portugueses da Rede prepararam um Guia de Acessibilidade para a Internet, recolhem assinaturas por E-mail para atingirem 10 mil e entregar uma 1ª Petição à Assembleia da República. Preparam ainda um manifesto mundial de utilizadores de Internet visando encorajar os governos, as organizações e os cidadãos em geral a tomarem iniciativas que promovam a acessibilidade da Internet para cidadãos com necessidades especiais. Podemos juntarmo-nos a eles através de <http://www.acessibilidade.net>.
Não falte.
SOS PRISÕES :
Atentando contra a exclusão
11 SOS PRISÕES Janeiro 99
A ACED apoia a iniciativa do deputado Mota Amaral
A ACED vem apelar aos deputados e às direcções partidárias, bem como ao Presidente da República e ao Governo para discutirem a iniciativa do deputado Mota Amaral de propor a decisão de perdão alargado de penas na assembleia da República.
A calamitosa situação das prisões portuguesas justifica o concenso. O concenso é que não deve justificar o silêncio dos pontos de vista e dos argumentos.
Faz agora um ano, esta associação decidiu tomar a iniciativa de pedir aos responsáveis políticos do país que se mobilizassem no sentido de conseguirem realizar objectivo semelhante. Para esse efeito reunimos um conjunto de assinaturas de cidadãos que connosco partilharam a iniciativa e entregámo-las às autoridades.
Secundamos, pois, naturalmente o Dr. Mário Soares, o Sr. Bispo de Leiria, o Presidente da Assembleia da República e todas as personalidades e organizações que, mais recentemente, declararam a sua solidariedade com a iniciativa do deputado Mota Amaral.
Destacamos quatro ordens de razões para a nossa tomada de posição, que esperamos poder encontrar eco na Assembleia da República.
Por razões humanitárias: as prisões portuguesas não são apenas palco de atentados aos Direitos Humanos dos reclusos, denunciados pelo Conselho da Europa e pelo Presidente da República, como são, no dizer de Salgado Matos, uma condenação aleatória à morte dos reclusos no seu conjunto: o descontrolo sanitário, a permiscuidade da super-lotação das cadeias e a ausência de um acompanhamento médico provocam uma mortalidade bárbara entre a população maioritariamente jovem nas prisões.
Por razões morais: o perdão não é apenas um valor cristão, o que já não é pouco, em especial num país como Portugal, é um instrumento indispensável de pacificação social. Efectivamente o atraso com que a jovem democracia portuguesa tem vindo a (des)cuidar a Justiça traz consigo germes de conflitualidade artificial, i.e., que não interessa a ninguém, que é apenas disfunção institucional que se pode reflectir em problemas sociais evitáveis. A Justiça não tem conseguido combater a crescente desigualdade social que atinge o país de forma mais intensa que em qualquer outro país da Comunidade. Pelo contrário, a Justiça portuguesa faz das suas fraquezas forças: bate duro naqueles que consegue "caçar" (Portugal é dos países da Comunidade com índices de criminalidade mais baixos mas com taxas de presos preventivos mais altas; Portugal é dos países com leis penais mais suaves mas com penas efectivas mais altas) e deixa impunes os que têm poderes para tal.
Por razões práticas: minorar a sobrelotação das prisões, contribuir para a diminuição das tensões sociais e assumir o objectivo de fazer cumprir a lei que regula a vida prisional, como é obrigação de um Estado de Direito, nomeadamente quanto à igualdade de direitos no acesso aos cuidados de saúde ao nível da higiene quotidiana, da alimentação, da prevenção de doenças infecto-contagiosas (através da distribuição de preservativos, troca de seringas, programas de substituição, etc.)
Por razões políticas: a modernização da sociedade portuguesa também traz consigo novos riscos, principalmente para os grupos sociais e para as pessoas menos preparadas para os enfrentar. Na prática verifica-se que em Portugal a modernização tem vindo a agudizar as desigualdades sociais a níveis desconhecidos nos outros países da Comunidade Europeia. As instituições judiciais ressentem-se da nova conflitualidade social continuando a discriminar entre os poderosos e o resto da população, através da atitudes complacentes perante os primeiros e imcompreensivelmente duros perante os segundos. Urge, claro, uma profunda reforma da Justiça e em particular das prisões.
As questões que queremos então colocar aos deputados são estas: A preocupação social da vossa política actual, que contrasta com o ambiente político dos anos anteriores, é de facto uma prioridade própria ou é apenas uma preocupação demagógica e fugaz de ir ao encontro dos sentimentos do Povo, para daí evitar consequências?
Se é uma prioridade própria, como julgamos que possa ser, qual o seu lugar no quadro da estratégia política, entre a Justiça e a Solidariedade? E, em particular, como pensam que os problemas dos presos, dentro das prisões, podem ser atacados? E como se podem incentivar as acções públicas e privadas na integração social dos excluídos?
É que, para nós, como indica o nome da nossa associação, sem combate à exclusão social não há desenvolvimento!
A ACED
12 SOS PRISÕES Janeiro 99
SOS PRISÕES: director: Rui Marques
Periodicidade: Mensal
Edição: Grupo de Trabalho para as Prisões
Propriedade: Associação Contra a Exclusão e pelo Desenvolvimento
Redacção: Apartado 1928 - 1057 Lisboa Codex
Impressão: ACED
Associação Contra a Exclusão e pelo Desenvolvimento
(ACED)
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O PROBLEMA DO PÉ
O que é isso de pé rapado?
É frequente ouvir-se dizer que as prisões estão cheias de pés rapados, mas que termo para designar seres humanos.
Aprofundando, o que é isso? Será um pé sem pêlos? Terá menos dedos? Não terá dedos? Ou será um pé igual a tantos outros, que andam na rua, vivem e são considerados como membros (os pés) importantes de pessoas?
Com certeza que os pés são todos iguais, ou parecidos, o seu tratamento é que difere. Enquanto houver esta distinção de pés, os direitos dos cidadãos não estão em pé de igualdade.
O pé rapado tem pernas/braços/cabeça/veias/coração, etc e deve ter a oportunidade de deixar de ser pé rapado, se a quiser aproveitar aí estamos na reintegração e na reestruturação mental capaz de os fazer ser auto-confiantes e prontos para a vida.
Mas, que haja essa oportunidade!
27 de Dezembro de 1998
M C MENDONÇA
Realização de: eugenio@rocketmail.com